A agência de classificação de risco Fitch Ratings afirmou, em nota divulgada nesta terça-feira (14), que a recuperação plena da inadimplência no varejo brasileiro é um cenário distante. A avaliação reflete o endividamento elevado das famílias e os juros altos, que continuam a pressionar a qualidade das carteiras de crédito próprias das grandes redes.
O alerta ocorre em um momento em que a inadimplência geral bateu recorde de 4,7% em maio, o maior patamar da série histórica do Banco Central, e o endividamento das famílias alcançou 29,9% da renda, segundo a Confederação Nacional do Comércio (CNC). Os dados foram reportados pelo PIRANOT e pelo PIRANOT.
A nota da Fitch não traz projeções numéricas nem cita empresas específicas, mas reforça a percepção de que a qualidade das carteiras de crédito do setor — sobretudo os cartões private label — seguirá pressionada enquanto o custo do dinheiro permanecer elevado para o consumidor.
Endividamento recorde e juros elevados pressionam varejo
O Banco Central reduziu a taxa Selic para 14,25% ao ano na última reunião do Copom, mas o juro médio cobrado do consumidor permanece em 56,7% ao ano, conforme mostrou o PIRANOT com base em dados da autoridade monetária. Esse patamar restringe o acesso ao crédito e alonga o ciclo de inadimplência, especialmente para bens duráveis, segmento central das grandes varejistas.
O endividamento recorde das famílias, que compromete quase 30% da renda, também limita a capacidade de consumo. A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da CNC, apontou que 29,9% das famílias estavam endividadas em maio, o maior percentual da série histórica. A combinação de juros altos e orçamento apertado torna mais difícil a retomada das vendas a prazo, base do faturamento de redes de eletrodomésticos, móveis e vestuário.
Cenário restritivo afeta consumo e balanços das empresas
Para os consumidores, a restrição ao crédito significa menos parcelamento sem juros e juros mais altos no rotativo do cartão, o que inibe compras de maior valor. As varejistas, por sua vez, precisam reforçar provisões para calotes, o que pressiona margens e pode levar a reavaliações de rating pela própria Fitch.
O ambiente de crédito restritivo já levou empresas de outros setores a buscar reestruturação de dívidas. A Oncoclínicas, por exemplo, protocolou recuperação extrajudicial de R$ 5,1 bilhões em julho, conforme noticiou o PIRANOT. Embora não seja do varejo, o caso ilustra a pressão que o crédito caro exerce sobre os balanços corporativos e acende um sinal de alerta para o setor.
Agência não detalha projeções, e mercado aguarda dados de junho
A nota da Fitch não especificou um prazo para a normalização da inadimplência nem recomendou percentuais de provisão para devedores duvidosos (PDD). O relatório completo da agência, que pode trazer análises segmentadas por setor, ainda não foi divulgado.
O mercado agora volta as atenções para os dados de inadimplência de junho, que serão divulgados pelo Banco Central nas próximas semanas. Esses números indicarão se a trajetória de alta continua ou se há sinais de estabilização, o que pode calibrar as expectativas para o varejo no segundo semestre.











