A Justiça do Quênia manteve suspenso nesta quinta-feira (4) o plano dos Estados Unidos para instalar um centro de quarentena de Ebola em Nanyuki, decisão tomada depois de protestos que deixaram dois mortos na semana anterior.
A ordem judicial trava, por ao menos 21 dias, um projeto previsto para a Base Aérea de Laikipia, com 50 leitos destinados a pacientes vindos da República Democrática do Congo e de Uganda. Duas perguntas centrais seguem sem resposta oficial: quem atirou nos manifestantes e qual é o teor integral do acordo firmado entre Washington e Nairóbi.
O bloqueio inicial foi determinado pela Alta Corte do Quênia em 29 de maio, após ação judicial contra a instalação. Em 2 de junho, o tribunal estendeu a suspensão e ordenou que o governo desse mais transparência ao projeto. Nos dias anteriores, manifestantes em Nanyuki já haviam bloqueado estradas em rejeição à proposta americana.
Duas pessoas morreram baleadas durante a manifestação contra a instalação, segundo organizadores do protesto ouvidos pela agência Reuters. A autoria dos disparos ainda não foi atribuída oficialmente.
O presidente do Quênia defendeu publicamente o projeto em 3 de junho, sinalizando que a proposta não foi abandonada pelo governo. Ainda assim, a instalação segue travada pela ordem judicial e pela exigência de esclarecimento público sobre os termos da cooperação com os Estados Unidos.
Por que um centro americano de Ebola no Quênia
O projeto prevê 50 leitos na Base Aérea de Laikipia, em Nanyuki, para receber pacientes de Ebola vindos da República Democrática do Congo e de Uganda. A suspensão por 21 dias impede a implementação enquanto o Judiciário cobra a divulgação dos termos do acordo bilateral.
O contexto sanitário pesa sobre a decisão. O Ebola provocou surtos mortais na África Ocidental entre 2014 e 2016 e na República Democrática do Congo entre 2018 e 2020. O PiraNOT mostrou, em cobertura anterior, que a atual emergência do Ebola no Congo avança em zona de conflito, o que aumenta a pressão por respostas internacionais de saúde pública.
A instalação de centros de tratamento por países estrangeiros costuma despertar resistência em comunidades locais, como ocorreu na Nigéria durante o surto de 2014. No caso queniano, a oposição se concentra em três pontos: soberania sanitária, segurança da população em torno da base aérea e a falta de publicação completa do acordo negociado com os Estados Unidos.
Transparência do acordo trava implementação
O próximo passo confirmado é o cumprimento da ordem judicial que prorrogou a suspensão e exigiu transparência sobre o projeto. Enquanto o tribunal não voltar a se manifestar ou o governo não publicar os documentos do acordo, o centro de Nanyuki não pode ser tratado como cancelado nem como em operação.
Duas lacunas oficiais sustentam a incerteza: a identificação de quem disparou contra os manifestantes e o conteúdo integral do entendimento entre os dois países. Sem essas respostas, a tendência é que o bloqueio judicial se mantenha e que a instalação na Base Aérea de Laikipia siga paralisada.











