A Raízen quer até 36 meses sem pagar juros em dinheiro em parte da nova dívida prevista no plano de recuperação extrajudicial. O mecanismo dá fôlego imediato ao caixa da companhia piracicabana, mas não elimina a cobrança: os juros podem ser incorporados ao saldo devedor e passam a render sobre uma base maior. É esse tipo de engenharia financeira que ajuda a explicar por que a Shell colocou R$ 3,5 bilhões na mesa para sustentar a reestruturação de uma dívida que soma cerca de R$ 65,4 bilhões no escopo do plano.
O ponto central é simples: a Raízen tenta trocar pressão de caixa agora por uma conta maior e mais longa no futuro. A empresa, formada pela Shell e pela Cosan, propõe converter parte do passivo em ações, criar novos títulos de dívida, separar negócios e dar mais espaço aos credores na governança. A próxima etapa decisiva está marcada para 8 de junho, quando credores signatários devem ratificar o plano discutido nesta quarta-feira (3).
A recuperação é extrajudicial, não judicial. Isso significa que a negociação ocorre diretamente com credores financeiros, com supervisão e homologação judicial, mas sem atingir créditos trabalhistas, fiscais, fornecedores operacionais e outros contratos que ficam fora do plano, segundo a descrição publicada pela Opea Securitizadora, representante de titulares de CRAs da Raízen.
Em resumo:
- Plano da Raízen reorganiza cerca de R$ 65,4 bilhões em dívidas sujeitas à recuperação extrajudicial.
- Shell se comprometeu com aporte de R$ 3,5 bilhões, enquanto veículo ligado a Rubens Ometto pode aportar mais R$ 500 milhões.
- Opção principal aos credores converte 45% do crédito em ações e 55% em nova dívida.
- Parte da nova dívida da Raízen Energia pode ter juros capitalizados por até três anos, sem pagamento em dinheiro nesse período.
- A votação de 3 de junho depende de ratificação em 8 de junho para produzir efeito definitivo.
O que significa ficar 36 meses sem pagar juros em dinheiro
A expressão “36 meses sem pagar juros” precisa ser lida com cuidado. Pelo desenho detalhado por casas de análise que acompanharam o plano, a Raízen Energia poderá, nos três primeiros anos, capitalizar os juros de parte da nova dívida em vez de desembolsar o valor em dinheiro. Esse mecanismo é conhecido no mercado como PIK, sigla em inglês para payment in kind.
Na prática, se a companhia exercer essa opção, o credor não recebe o juro em caixa naquele semestre. O valor é acrescentado ao principal da dívida, e o saldo maior passa a render nos períodos seguintes. Ou seja, há alívio imediato para a empresa, mas a dívida remanescente cresce.
Há ainda um custo adicional. Segundo relatório da XP sobre o plano, a companhia pagará um prêmio de 200 pontos-base caso use a capitalização de juros. No trecho em reais da Raízen Energia, por exemplo, o spread sobre o CDI subiria de 1,25% para 3,25% ao ano durante o período em que o mecanismo for usado.
Esse é o coração financeiro da proposta: preservar caixa no momento mais crítico, aceitar uma remuneração maior aos credores e empurrar a amortização para vencimentos mais longos.
Como funciona a principal opção oferecida aos credores
A alternativa mais completa do plano é a chamada Opção A. Nela, 45% do crédito sujeito à recuperação extrajudicial vira participação acionária na Raízen, com referência de R$ 0,25 por ação. Os 55% restantes são convertidos em nova dívida, dividida entre os negócios de combustíveis e energia.
O desenho informado pela XP divide essa nova dívida em duas frentes. A parcela ligada à Raízen Combustíveis teria remuneração de CDI mais 2,75% ao ano em reais, 8,50% ao ano em dólar ou 7,65% ao ano em euro, com vencimentos em 2032 e 2034. A parcela ligada à Raízen Energia teria CDI mais 1,25% ao ano em reais, 7% ao ano em dólar ou 6,15% ao ano em euro, com vencimentos em 2033 e 2035.
Para créditos incentivados da Raízen Energia, como debêntures incentivadas e CRAs, o plano também prevê instrumentos que buscam preservar a isenção fiscal, com remuneração indicada de IPCA mais 9% ao ano. Nos CRAs, a escolha operacional da opção ocorre pela securitizadora, e não isoladamente por cada investidor, conforme a estrutura explicada pela Opea.
Outras opções têm desconto forte ou pagamento para pequenos credores
A Opção B é mais dura para o credor. Ela prevê desconto de 80% sobre o valor do crédito, com pagamento dos 20% restantes em uma dívida longa, vencendo em março de 2047 e corrigida pela Taxa Referencial. Segundo a Opea, essa é a opção padrão para quem não fizer escolha válida dentro do prazo previsto no processo.
A Opção C mira credores de menor valor. O pagamento seria em dinheiro, equivalente ao menor valor entre 75% do crédito ou R$ 9.750, sujeito a um limite agregado de R$ 150 milhões. Se a demanda por essa opção superar o limite, a alocação prioriza créditos menores; quem ficar fora é direcionado para outra alternativa prevista no plano.
Essas três opções mostram que o plano não trata todos os investidores da mesma forma na prática, embora estabeleça caminhos comuns para a classe de credores financeiros. Quem aceita ações participa do risco futuro da empresa. Quem escolhe desconto troca recuperação menor por uma estrutura mais simples. Quem tem crédito pequeno pode tentar receber parte em dinheiro, dentro do limite disponível.
Shell entra com R$ 3,5 bi e Ometto pode pôr mais R$ 500 mi
O aporte da Shell é um dos pilares do plano. A multinacional se comprometeu com R$ 3,5 bilhões em capital novo, usando a mesma referência de R$ 0,25 por ação aplicada na conversão de parte da dívida dos credores. Um veículo ligado à Aguassanta Investimentos, de Rubens Ometto, pode adicionar mais R$ 500 milhões nas mesmas condições.
Esse dinheiro novo não é apenas reforço de caixa. Ele também define o preço de referência da reestruturação e sinaliza quem quer continuar com influência no futuro da companhia. Pelas estimativas publicadas pela XP, após aporte e conversão de dívidas, os credores poderiam ficar com cerca de 83% da estrutura societária, enquanto Shell teria 13%, Cosan 3% e outros acionistas 1%. Esses percentuais são estimativas de análise de mercado, não uma proclamação definitiva da companhia.
Para Piracicaba, o dado é sensível. A Raízen tem matriz na cidade e nasceu da união entre Shell e Cosan, grupo criado em Piracicaba. A reestruturação pode manter a empresa viva, mas também pode reduzir o peso relativo do comando empresarial construído a partir da cidade.
Governança pode mudar e credores ganham espaço
O plano também trata de poder. A proposta prevê um comitê de credores com cinco membros durante a implementação e, depois do fechamento, um conselho de administração com sete cadeiras, das quais quatro seriam indicadas pelos credores apoiadores, incluindo a presidência do colegiado, segundo detalhes compilados por analistas de mercado.
Esse ponto ajuda a explicar por que o aporte da Shell é estratégico. A multinacional protege a rede de distribuição e a marca Shell no Brasil, injeta dinheiro em um ativo relevante e entra em uma reestruturação que pode redesenhar a governança da Raízen. Ao mesmo tempo, os credores deixam de ser apenas cobradores e passam a ter influência direta sobre o futuro da companhia.
A permanência de Rubens Ometto no centro do comando não está descartada no curto prazo, mas também não pode ser tratada como garantida no longo prazo. O plano preserva etapas de transição, porém condiciona o futuro da companhia à adesão dos credores, aos aportes e à homologação judicial.
Separação dos negócios busca salvar valor
Outro eixo da proposta é separar a Raízen em duas estruturas. Uma ficaria voltada a combustíveis e distribuição no Brasil. A outra concentraria açúcar, etanol, bioenergia e ativos ligados à operação de energia, incluindo discussões sobre desinvestimentos e negócios fora do país.
A lógica é tirar a empresa do bloco único de crise. Com duas estruturas, fica mais fácil vender ativos, atrair investidores, organizar garantias e separar riscos. Segundo informações de mercado, a implementação completa dessa segregação pode avançar até 2027, dependendo das aprovações e das condições previstas no plano.
A Raízen chegou a esse ponto após uma combinação de expansão acelerada, juros altos, pressão operacional, investimentos em novas frentes e perda de fôlego financeiro. A Opea cita, com base na própria documentação da empresa, aquisições, investimentos em etanol de segunda geração, fatores climáticos, queda do ATR, retração de commodities e instabilidade na Argentina como elementos do quadro de crise.
Votação de 8 de junho é o teste decisivo
As assembleias desta quarta-feira (3) não encerram a recuperação extrajudicial. Segundo a Opea, a aprovação do Plano Atualizado pelos titulares de CRA está sujeita a uma condição resolutiva: a ratificação pelos credores signatários na assembleia de 8 de junho. Se a ratificação não ocorrer, a aprovação anterior perde eficácia automaticamente.
Comunidade PIRANOT
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A Bloomberg Línea informou que a Raízen obteve apoio informal da maioria dos credores para a proposta final de reestruturação, com alguns detentores de títulos locais aprovando o plano em reuniões desta quarta. A própria reportagem registrou que a empresa não comentou a informação. Por isso, o dado deve ser tratado como bastidor relevante, não como conclusão definitiva do processo.
Se o plano avançar, a Raízen ganha tempo e reduz risco de uma ruptura mais traumática. Se não avançar, credores podem retomar medidas de cobrança e o stay period perde sua utilidade como proteção negocial. A votação do dia 8, portanto, é o próximo divisor de águas para a empresa piracicabana.
Bolsa mostra que o mercado ainda vê risco
Na Bolsa, a ação preferencial da Raízen (RAIZ4) fechou esta quarta-feira cotada a R$ 0,39, em alta de 2,63%, segundo dados do Google Finance. O papel segue perto das mínimas recentes e muito abaixo da máxima de 52 semanas, de R$ 2,06.
A reação limitada mostra o dilema dos investidores. O plano pode evitar um colapso financeiro maior, mas também embute diluição acionária, alongamento de dívida, mudança de governança e incerteza sobre o valor futuro da companhia.
Este texto tem caráter jornalístico e não constitui recomendação de investimento.















