Caetano Veloso afirmou haver “excesso” de racialização e sexualização no debate político e que isso “gera muita confusão”, em entrevista ao jornal espanhol El País publicada em 1º de junho, durante turnê europeia.
A declaração marca uma inflexão na trajetória pública do cantor, de 83 anos, historicamente identificado com a esquerda cultural brasileira e com a defesa das chamadas pautas identitárias. Na mesma entrevista, segundo trechos reproduzidos pela imprensa brasileira, ele afirmou que o “Brasil não pode ser salvo”.
O que Caetano disse ao El País
Nos trechos atribuídos ao cantor, Caetano sustenta que há “um excesso” nas discussões raciais e de gênero conduzidas pela esquerda e que esse tom estaria gerando confusão no debate público. A entrevista foi concedida durante temporada europeia e, até o fechamento desta reportagem, não havia sido reproduzida na íntegra em português.
O PiraNOT não acessou diretamente a versão original publicada pelo El País. Os trechos citados nesta reportagem foram apurados a partir de coberturas de O Globo, Veja, Diário do Centro do Mundo e Gazeta do Povo, com pequenas variações de tradução e edição entre os veículos.
A distância de Verdade Tropical
Em Verdade Tropical, livro publicado em 1997, Caetano defendia que a esquerda brasileira abraçasse as pautas de raça, sexualidade e comportamento como parte central de seu projeto político. A fala atual é lida como uma revisão crítica desse posicionamento, quase três décadas depois.
O peso simbólico da declaração se amplia pelo calendário: a entrevista circula no início do Mês do Orgulho LGBTQIA+, período em que organizações do movimento concentram pautas e atos públicos. Até a publicação desta reportagem, nenhuma entidade citada no debate havia divulgado reação formal aos trechos.
O que ainda falta confirmar
Três pontos seguem em aberto: a publicação ou consulta integral da entrevista original do El País, eventual nota da assessoria de Caetano esclarecendo o alcance das declarações e a manifestação formal de entidades LGBTQIA+ e do movimento negro sobre o conteúdo atribuído ao cantor. Até que esses elementos sejam confirmados, a leitura da fala deve se restringir aos trechos publicados pelos veículos que tiveram acesso à entrevista.











