A maioria das empresas não financeiras brasileiras espera que a reforma tributária eleve a carga de impostos, os custos de compliance e a necessidade de capital de giro em 2027. A conclusão é da pesquisa Firmus, divulgada pelo Banco Central, que ouviu 349 companhias entre 11 e 29 de maio.
Para 59,9% dos respondentes, o custo de compliance aumentará no próximo ano. Outros 53,6% afirmam que a carga tributária ficará mais alta. A pressão se estende ao caixa: 50,1% das empresas projetam maior necessidade de capital de giro, e a mesma proporção prevê preços de venda mais altos. Metade (51%) antecipa aumento nos custos de insumos.
Reforma entra no planejamento de caixa das empresas
A reforma tributária foi promulgada em dezembro de 2023 e tem implantação gradual até 2033. A fase de testes começou em 1º de janeiro de 2026, com a CBS e o IBS cobrados a alíquotas simbólicas de 0,9% e 0,1%, respectivamente, compensadas no pagamento de PIS/Cofins. Em 2027, a transição passa a afetar também empresas do Simples Nacional, que precisarão escolher entre o regime atual e um modelo híbrido.
Quando metade das empresas espera maior necessidade de capital de giro, a pressão não se limita ao imposto devido: ela alcança prazos de pagamento, compras, financiamento de estoque e renegociação com fornecedores. A previsão de aumento nos preços de venda, citada por 50,1% dos entrevistados, sugere que parte das companhias considera repassar custos ao consumidor — o que coloca a transição tributária como variável de precificação para 2027.
O aumento esperado nos custos de insumos reforça a pressão sobre margens. Em setores com menor capacidade de repasse, a combinação de insumos mais caros, maior capital de giro e carga tributária mais alta pode reduzir espaço para investimento.
Setores diferentes, impactos diferentes
Os impactos variam conforme o modelo de negócio, o regime tributário e a capacidade de adaptação. O setor de franquias, que reúne cerca de 3.500 franqueadoras e responde por 3,3% do PIB brasileiro, poderá enfrentar pressão sobre margens de lucro com a elevação da tributação sobre royalties e taxas de franquia. Redes do segmento já se preparam para revisar contratos, precificação, tecnologia e governança.
O setor aduaneiro também prevê custos maiores para importação. Um estudo do Bradesco, assinado pelo economista Constantin Jacson, da Diretoria de Pesquisa Econômica, analisa a arquitetura da reforma e antevê impactos mesmo com regras para alguns setores ainda em elaboração. No início de junho, a Receita Federal publicou novas orientações sobre a transição.
Maioria ainda não calculou o impacto
Apesar das expectativas de aumento, mais de 60% das empresas ainda não mediram o impacto da reforma em seus negócios, segundo levantamento do Panorama do Contas a Pagar 2026. Isso indica que parte relevante do setor privado toma decisões de orçamento e contratos sem uma estimativa própria sobre a transição.
O detalhamento por porte, setor e regime tributário será decisivo para diferenciar riscos entre empresas do Lucro Real, Lucro Presumido e Simples Nacional. Sem essa abertura, a pesquisa do Banco Central mostra a direção da preocupação empresarial, mas não permite medir quem deve ser mais afetado.
O que vem pela frente
Os próximos passos dependem da sequência de implementação e das regras operacionais que orientarão IBS e CBS. Para as empresas, o calendário relevante passa por 2026, quando a adaptação começa, e por 2027, quando a expectativa de maior carga aparece com mais força. A transição termina apenas em 2033, mas a pesquisa mostra que a conta de 2027 já entrou no planejamento das companhias — e que parte delas ainda precisa começar a calculá-la.











