O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL) comunicou nesta quarta-feira (28) ao presidente do partido, Valdemar da Costa Neto, sua desistência da candidatura ao Senado nas eleições de 2026. A conversa telefônica, breve e sem grandes rodeios, foi confirmada por fontes da legenda. “Cláudio Castro desistiu de disputar o Senado”, resumiu Valdemar, em declaração que sintetizou o desfecho de um processo de desgaste acumulado ao longo de semanas.
A decisão ocorre sob o impacto direto de duas operações da Polícia Federal que atingiram o ex-governador em maio. A primeira, no dia 15, e a segunda apenas 24 horas antes, na terça-feira (27), cumpriram mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Castro. Os investigadores apuram suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro, concentrando-se, entre outros pontos, nas relações do político com o empresário Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master — apontado como possível intermediário em esquemas de propina. A PF também esmiúça contratos firmados durante a gestão de Castro à frente do Palácio Guanabara, incluindo acordos nas áreas de saúde e infraestrutura.
A avaliação interna do PL tornou insustentável a manutenção da pré-candidatura. Um dirigente que participou das conversas reservadas e pediu anonimato foi enfático: “Não dava mais para segurar. O risco de contaminação para o Flávio era muito grande”. A referência é à campanha pela reeleição do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tratada como prioridade máxima pela cúpula nacional da sigla. Os cálculos eleitorais mostravam que Castro, mesmo sem condenação, carregava um passivo que poderia respingar no principal nome bolsonarista no Rio de Janeiro — estado visto como baluarte do projeto de poder da família Bolsonaro.
Além do cerco da PF, pesa sobre o ex-governador a incerteza jurídica no Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Relatos veiculados na imprensa, sem confirmação oficial até o momento, dão conta de que Castro poderia ter sua inelegibilidade decretada. O PIRANOT investiga o andamento do processo, mas, por ora, não há decisão definitiva. A assessoria do político não respondeu aos pedidos de manifestação. Mesmo sem uma sentença formal, a mera existência desse cenário contribuiu para acelerar o recuo.
Com a retirada de Castro, o PL corre para encontrar um substituto capaz de manter a coesão da direita fluminense e, ao mesmo tempo, não ofuscar ou prejudicar a candidatura de Flávio Bolsonaro. Interlocutores de Valdemar afirmam que o nome ideal deve ter musculatura eleitoral própria, mas também fidelidade irrestrita à agenda bolsonarista. As negociações estão em estágio inicial, e nenhuma indicação foi formalizada. A ala parlamentar do partido, no entanto, já trabalha com a hipótese de lançar um quadro oriundo da Baixada Fluminense, região onde o bolsonarismo colheu vitórias expressivas em 2022.
A trajetória de Cláudio Castro até aqui foi turbulenta. Vice de Wilson Witzel, ele assumiu o governo em 2021 após o impeachment do titular, mas nunca conseguiu se descolar das sombras do antecessor. Seu mandato, que se encerraria em dezembro de 2022, terminou sob uma nuvem de denúncias e investigações que foram se acumulando. Já naquele período, surgiram suspeitas de irregularidades em contratos emergenciais da pandemia e em licitações da Secretaria de Saúde — episódios que, agora, se somam às apurações atuais da PF.
O mais recente capítulo dessas apurações teve repercussão nacional: a 8ª fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta semana, investiga desvios de R$ 3 bilhões do Rioprevidência, o fundo de pensão dos servidores estaduais, conforme reportagem do PIRANOT. A ação incluiu a condução coercitiva de ex-assessores do ex-governador, aprofundando a crise política que já corroía suas bases. Investigações paralelas miram ainda contratos de precatórios e obras viárias, ampliando o arco de suspeitas que envolvem o período Castro.
O esvaziamento da pretensão eleitoral do ex-governador reconfigura o tabuleiro fluminense. O PL enfrenta a difícil missão de manter a hegemonia bolsonarista em um estado que, nos últimos dois anos, colecionou derrotas municipais e escândalos administrativos. A aposta em Flávio Bolsonaro como âncora da chapa continua, mas a desistência de Castro escancara a fragilidade de um projeto que precisará de nomes sem máculas para sobreviver ao escrutínio das urnas. Até as próximas definições, a legenda tenta conter os estragos e encontrar um plano B à altura do desafio.
Procurada, a direção nacional do PL informou, por meio de nota: “Respeitamos a decisão do ex-governador e conduziremos internamente o processo de escolha do novo candidato”. Cláudio Castro, por sua vez, não concedeu entrevista. Aliados próximos afirmam que, a partir de agora, ele deve se dedicar exclusivamente à sua defesa judicial — uma batalha que, se perdida, poderá tirá-lo de cena por muito mais tempo do que as próximas eleições.











