A Micron Technology ampliou para US$ 250 bilhões seu plano de investimentos nos Estados Unidos até 2035, em um movimento que coloca a fabricante americana no centro da disputa global por memória usada em chips de inteligência artificial.
O plano mira a expansão da capacidade de produção de semicondutores avançados, especialmente memórias de alta largura de banda, conhecidas como HBM. Esse tipo de componente é decisivo para acelerar sistemas de IA e abastece processadores de alto desempenho, como os usados pela Nvidia em data centers.
A aposta também tem peso político. Washington tenta reduzir a dependência de cadeias produtivas concentradas na Ásia e atrair para o território americano etapas críticas da fabricação de chips. A Micron, uma das principais concorrentes de Samsung e SK Hynix em memória, passa a vender o plano como parte dessa reorganização industrial.
Plano bilionário mira escala para atender a demanda por IA
A corrida por HBM ganhou força com a explosão dos investimentos em inteligência artificial generativa. Quanto maiores os modelos e os data centers, maior a demanda por memória rápida, capaz de alimentar processadores gráficos e aceleradores de IA sem criar gargalos de desempenho.
Para a Micron, o desafio é transformar o anúncio em capacidade industrial. A companhia ainda não detalhou a divisão dos US$ 250 bilhões entre suas operações nos Estados Unidos, nem apresentou um cronograma público completo de desembolsos até 2035. Também não informou qual fatia dependerá de subsídios federais, financiamento privado ou recursos próprios.
O ponto é sensível porque projetos de semicondutores exigem fábricas caras, prazos longos, licenças, equipamentos especializados e previsibilidade de demanda. Nos Estados Unidos, a execução desse tipo de plano também passa pela disputa por incentivos vinculados ao CHIPS Act, pacote criado para fortalecer a produção local de chips.
Hiroshima mostra que a expansão não se limita aos EUA
A ofensiva da Micron ocorre em mais de uma frente. Em 4 de julho, a empresa realizou a cerimônia de início das obras de ampliação de sua fábrica em Hiroshima, no Japão, em um projeto estimado em R$ 48 bilhões, o equivalente a US$ 9,3 bilhões.
A unidade japonesa entra na mesma lógica da corrida por capacidade produtiva. Embora o anúncio americano concentre o maior volume financeiro, a expansão em Hiroshima reforça que a cadeia de memória para IA continuará distribuída entre Estados Unidos e Ásia, mesmo com a pressão de Washington por produção doméstica.
Esse equilíbrio é crucial para clientes de tecnologia. Empresas que compram aceleradores de IA dependem não apenas dos processadores, mas também da oferta de memória avançada. Falhas de fornecimento ou atrasos em fábricas podem encarecer servidores, limitar entregas e afetar a expansão de data centers.
Ação sobre DRAM cria ruído no momento do anúncio
O anúncio chega poucos dias depois de Samsung, SK Hynix e Micron aparecerem em uma ação coletiva federal nos Estados Unidos sobre suposta manipulação de preços de DRAM. A acusação afirma que as empresas teriam inflado preços de memória RAM em até 700%.
A ação ainda não impede a execução do plano industrial da Micron, mas cria um contraponto para uma empresa que depende de escala, reputação regulatória e confiança de grandes compradores. Em semicondutores, litígios desse porte podem pressionar margens, elevar custos jurídicos e ampliar o escrutínio sobre práticas comerciais.
Outra frente política entrou no radar em 1º de julho, quando Donald Trump anunciou um aporte de US$ 250 milhões da Micron ao Trump Accounts, programa de poupança infantil ligado ao governo americano. O valor é separado do plano industrial: são US$ 250 milhões para o programa de poupança e US$ 250 bilhões para a expansão produtiva até 2035.
A coincidência dos anúncios aumenta a exposição pública da companhia, mas não muda o eixo econômico do plano. A questão central para investidores, fornecedores e clientes será a capacidade da Micron de entregar fábricas, ampliar a produção de HBM e competir com fabricantes asiáticas em um mercado que virou peça estratégica da inteligência artificial.
Até 2035, o compromisso de US$ 250 bilhões será medido menos pelo tamanho do anúncio e mais pela capacidade adicional que chegará ao mercado. Se a Micron cumprir a expansão, os Estados Unidos ganham peso na cadeia de memória avançada; se atrasar, a dependência de fornecedores asiáticos continuará definindo o ritmo da IA.










