Os preços dos etanóis anidro e hidratado recuaram em São Paulo no primeiro trimestre da safra 2026/27, ao mesmo tempo em que a área destinada à colheita de cana-de-açúcar no Centro-Sul avançou 3%. O movimento combina mais oferta no curto prazo com um cenário ainda pressionado pela produtividade menor dos canaviais.
A queda atinge os dois principais produtos vendidos pelas usinas paulistas. O etanol hidratado é o combustível usado diretamente nos veículos flex; o anidro entra na mistura obrigatória da gasolina. Com a moagem avançando no começo do ciclo e a produção de etanol de cana e de milho ganhando espaço, os preços perderam força nas negociações do período.
O recuo, porém, não significa alívio amplo para o setor. A safra 2024/25 terminou com queda de 5,1% na produção de cana-de-açúcar, e as projeções para 2025/26 indicam novo ciclo apertado. A expansão da área colhida no Centro-Sul ajuda a recompor parte da oferta, mas ainda não elimina o efeito das secas recentes sobre a produtividade agrícola.
Área maior não resolve perda de produtividade
O avanço de 3% na área disponível para colheita mostra que as usinas entraram na safra 2026/27 com mais canaviais em operação. A recuperação, contudo, depende menos do tamanho da área e mais do rendimento por hectare, justamente o ponto afetado por estiagens e pelo envelhecimento de parte dos canaviais nos últimos ciclos.
Esse contraste explica a leitura dividida do mercado: há mais cana a colher no Centro-Sul, principal polo sucroenergético do país, mas o volume final ainda depende do clima e da capacidade de moagem ao longo do ano. Em safras recentes, o setor ampliou a produção de etanol mesmo com estimativas mais fracas para a cana, reforçando a disputa entre açúcar e biocombustíveis dentro das usinas.
Preço menor aperta a conta das usinas
Para as usinas, etanol mais barato no início da safra reduz a receita por litro vendido e pode estreitar margens em um momento de custos agrícolas ainda elevados. O efeito varia conforme o perfil de cada grupo, o mix entre açúcar e etanol e o nível de endividamento.
Resultados recentes de empresas do setor já indicavam uma operação mais seletiva. A Zilor encerrou a safra 2025/26 com lucro de R$ 364,4 milhões, enquanto a Tereos reportou lucro de R$ 137 milhões, queda de 62% sobre o ciclo anterior, apesar de reduzir a dívida em 19%. Esses números mostram que a rentabilidade depende tanto do preço dos produtos quanto da estrutura financeira de cada companhia.
Na ponta do consumidor, a queda nas usinas tende a chegar aos postos com atraso e de forma desigual. O preço final do etanol depende de frete, tributos, margens de distribuição e revenda e da relação com a gasolina. Nos próximos meses, o mercado acompanha se a área maior no Centro-Sul será suficiente para compensar a produtividade mais fraca e sustentar preços menores dos biocombustíveis.










