Ronaldo Caiado transformou a ameaça de novas tarifas dos Estados Unidos contra o Brasil em munição para a disputa presidencial de 2026. O ex-governador de Goiás criticou Lula e Flávio Bolsonaro pelas posições adotadas diante do tarifaço anunciado por Donald Trump e afirmou que a briga política deixa o país “em segundo plano”.
A ofensiva mira os dois polos que Caiado tenta enfrentar no debate nacional. Contra Lula, ele sustenta que o presidente elevou o tom e provocou Trump em vez de preservar canais de negociação. Contra Flávio, acusa o senador de adotar uma postura de “ajoelhamento” ao buscar nos Estados Unidos o adiamento das tarifas.
Flávio Bolsonaro participou de audiência nos EUA sobre uma investigação comercial e pediu que a aplicação do tarifaço fosse adiada. O movimento ampliou a disputa dentro da direita: de um lado, o bolsonarismo tenta se apresentar como interlocutor direto com aliados de Trump; de outro, Caiado tenta ocupar o espaço de uma direita que fala em soberania, previsibilidade econômica e negociação conduzida por canais de Estado.
O tema ganhou peso porque a decisão americana pode afetar exportadores brasileiros e contaminar a relação bilateral. A disputa, que começou no campo comercial, entrou no tabuleiro eleitoral ao colocar Lula, Flávio e Caiado em posições diferentes sobre como reagir à pressão de Washington.
Caiado tenta se diferenciar de Lula e do bolsonarismo
A crítica de Caiado tem dois alvos calculados. Ao acusar Lula de provocar Trump, ele busca associar o governo a uma estratégia de confronto que, segundo sua avaliação, pode piorar o ambiente para empresas brasileiras. Ao atacar Flávio, tenta marcar distância da ala bolsonarista e questionar a legitimidade de uma articulação parlamentar fora da condução formal do governo brasileiro.
A frase de que “o Brasil fica em segundo plano” resume o argumento político de Caiado: a crise tarifária, para ele, passou a ser tratada como instrumento de campanha antes de ser enfrentada como problema econômico. Essa linha também serve para reposicioná-lo no campo da direita, onde governadores e lideranças bolsonaristas disputam espaço para 2026.
O conflito não nasce do zero. Flávio Bolsonaro já havia descartado Caiado e Romeu Zema como possíveis nomes para uma composição de chapa, movimento que expôs o impasse entre o PL e governadores de direita. Agora, a crise com os Estados Unidos oferece a Caiado uma nova oportunidade de confrontar o bolsonarismo sem se aproximar de Lula.
Em Goiás, base política de Caiado, pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta quinta-feira (9) registrou 37% para Caiado, 27% para Lula e 25% para Flávio Bolsonaro na intenção de voto para presidente. O recorte ajuda a explicar por que a disputa sobre tarifas ganhou leitura eleitoral: os três aparecem no mesmo campo de competição em um estado estratégico para a direita.
Viagem de Flávio acirra disputa por protagonismo
Flávio entrou no episódio como senador e aliado do ex-presidente Jair Bolsonaro. Sua participação em audiência nos Estados Unidos foi apresentada como tentativa de abrir interlocução política para frear ou adiar o impacto das tarifas sobre o Brasil.
Para Caiado, porém, a iniciativa reforça a confusão entre interesse nacional e disputa partidária. Como senador, Flávio pode fazer gestões políticas e defender posições no exterior, mas a negociação formal de tarifas cabe ao governo brasileiro, por meio dos canais diplomáticos e econômicos.
Do lado do Planalto, Lula aparece como alvo da crítica oposta: Caiado afirma que o presidente teria tensionado a relação com Trump ao adotar uma postura de enfrentamento público. A cobrança, nesse ponto, é por uma resposta que preserve a autoridade do governo sem transformar a crise comercial em palanque.
A disputa também dialoga com pesquisas nacionais. Em levantamento anterior, Lula aparecia 6,5 pontos à frente de Flávio Bolsonaro em um cenário de segundo turno. Esse pano de fundo ajuda a explicar por que uma decisão comercial dos EUA passou a ser lida, no Brasil, como teste de liderança para 2026.
Decisão dos EUA pode atingir exportadores brasileiros
O próximo passo é a definição do governo Trump sobre a aplicação das novas tarifas contra produtos brasileiros. Se a medida avançar, setores exportadores podem enfrentar perda de competitividade no mercado americano, encarecimento de operações e pressão por uma resposta do governo Lula.
Até lá, a crise seguirá como disputa de estratégia. Lula tenta sustentar a reação institucional do governo, Flávio busca capitalizar a ponte com aliados de Trump, e Caiado aposta no desgaste dos dois para se apresentar como alternativa de direita com discurso de Estado.










