SÃO PAULO – Um foguete New Glenn, da Blue Origin, foi destruído por uma explosão de grandes proporções durante um teste de ignição estática no Complexo de Lançamento 36, na Estação da Força Espacial de Cabo Canaveral, Flórida, na noite de quinta-feira, 28 de maio. O incidente ocorreu por volta das 20h (horário de Brasília), enquanto os sete motores BE-4 do primeiro estágio eram acionados como parte de um procedimento de rotina que antecede futuros lançamentos. Toda a estrutura do veículo, com 98 metros de altura, foi envolvida por uma nuvem de chamas alaranjadas e fumaça preta, em cena registrada por câmeras de monitoramento e testemunhas.
“Registramos uma anomalia durante o teste de acionamento de hoje. Todo o pessoal foi localizado”, declarou a Blue Origin em comunicado oficial divulgado logo após o acidente. A empresa, fundada por Jeff Bezos, confirmou que não houve feridos e que equipes de emergência atuaram imediatamente para isolar a área e conter possíveis danos. Ainda não há detalhes sobre as causas da anomalia, mas a plataforma de lançamento permaneceu interditada enquanto engenheiros e autoridades iniciavam os trabalhos de avaliação.
O teste de ignição estática, conhecido como static fire, consiste em acender os motores com o foguete preso à plataforma, sem decolagem, para verificar o funcionamento integrado de todos os sistemas. No caso do New Glenn, o primeiro estágio é equipado com sete propulsores BE-4, que queimam gás natural liquefeito e oxigênio líquido. O mesmo motor é utilizado pelo foguete Vulcan Centaur, da United Launch Alliance (ULA), o que amplia as preocupações sobre eventual fragilidade de projeto. A explosão de quinta-feira levantou questionamentos entre engenheiros aeroespaciais, embora análises detalhadas dependam dos dados da telemetria que serão examinados pela equipe de investigação. O programa BE-4 já enfrentou desafios técnicos significativos durante seu desenvolvimento, incluindo problemas com turbobombas e instabilidade de combustão que atrasaram sua certificação em mais de quatro anos.
A explosão interrompe abruptamente os preparativos da missão NG-4, que carregaria 48 satélites de banda larga do Projeto Kuiper, da Amazon, para órbita terrestre baixa. O cronograma, que já acumulava atrasos, agora fica indefinidamente suspenso. A Amazon planeja iniciar o serviço comercial de internet até 2028, rivalizando com a constelação Starlink, da SpaceX, que já ultrapassa 5 mil satélites em operação. O New Glenn, com capacidade de colocar até 45 toneladas em órbita baixa, era o veículo designado para a maior parte dos lançamentos da megaconstelação de mais de 3.200 satélites. “Este incidente representa um desafio significativo para o cronograma do Projeto Kuiper, mas continuamos comprometidos com nossa missão de fornecer conectividade global”, afirmou um porta-voz da Amazon em comunicado à imprensa. Sem uma alternativa de transporte imediata — o foguete Ariane 6, da Arianespace, também sofre com atrasos —, a corrida para oferecer conectividade global torna-se ainda mais desafiadora para o grupo de Jeff Bezos.
O programa New Glenn, anunciado em 2016, enfrenta um histórico de percalços. O primeiro voo, previsto inicialmente para 2020, ocorreu apenas em 2025, após sucessivos adiamentos relacionados ao desenvolvimento dos motores e à integração do veículo. Em abril de 2026, durante a missão NG-2, o foguete alcançou a órbita, mas uma falha no posicionamento de um satélite de testes da Força Espacial dos EUA foi classificada como “anomalia pós-lançamento”. A Blue Origin, segunda empresa privada a oferecer transporte orbital com o foguete suborbital New Shepard, ainda não realizou missões tripuladas com o New Glenn, o que contrasta com a agressividade da concorrente SpaceX. O histórico de atrasos da empresa inclui a perda de um contrato de US$ 2,9 bilhões para o programa de alunissagem Artemis em 2021, posteriormente revertido após protesto junto ao Government Accountability Office.
As implicações do incidente vão além do Projeto Kuiper. O New Glenn é peça central em contratos bilionários, como o lançamento de módulos lunares para as missões Artemis, da Nasa, e de satélites militares confidenciais da Força Espacial. Uma paralisação prolongada pode levar o governo dos Estados Unidos a reavaliar a confiabilidade do veículo, abrindo espaço para que outros fornecedores, como a própria SpaceX com o Falcon Heavy ou o futuro Starship, ampliem sua fatia de mercado. A Nasa e a Força Espacial informaram que acompanham a situação, sem emitir declarações oficiais. Da mesma forma, os órgãos reguladores, como a FAA e a NTSB, ainda não se manifestaram sobre a extensão da investigação ou sobre a possibilidade de suspensão de licenças de voo.
“Todo o pessoal foi localizado”, repetiu a Blue Origin, em novo comunicado, reforçando que os protocolos de segurança funcionaram. Apesar da gravidade do acidente, a ausência de vítimas foi comemorada por fontes oficiais locais, que elogiaram a rápida resposta das equipes de emergência. No entanto, a falta de detalhes técnicos e de posicionamentos diretos de outras instituições envolvidas limita a avaliação independente sobre as causas e os prazos para o retorno das operações. A investigação deve se concentrar nos sistemas de propulsão e na integridade estrutural do veículo, áreas que historicamente apresentaram desafios durante o desenvolvimento do New Glenn.
O Acervo Histórico do PIRANOT registra que tensões tecnológicas entre potências são cada vez mais frequentes, e o incidente no Cabo Canaveral adiciona um novo capítulo à imprevisível corrida espacial privada. Enquanto a SpaceX acumula contratos com o Pentágono e lança missões tripuladas regularmente, a Blue Origin tenta se firmar como uma alternativa confiável. O revés desta quinta-feira, no entanto, amplia o desnível entre as duas empresas e sublinha os riscos da exploração espacial comercial, em que o cronograma e a confiabilidade são tão valiosos quanto a tecnologia de ponta.











