A Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (UNAMA) informou na segunda-feira (12) que ao menos 372 civis afegãos foram mortos e outros 397 ficaram feridos em confrontos transfronteiriços entre Paquistão e Afeganistão entre janeiro e março de 2026. Os números, os mais elevados desde a retomada do poder pelo Talibã em 2021, revelam uma escalada humanitária quase invisível à comunidade internacional.
Mais da metade das mortes, segundo a UNAMA, foi atribuída a um ataque aéreo contra um centro de reabilitação de dependentes químicos em Cabul. Outro episódio agravou o cenário: em 27 de abril, um bombardeio paquistanês atingiu uma universidade na província de Kunar, leste do Afeganistão, matando sete pessoas e ferindo 85, de acordo com autoridades locais. O ataque ocorreu logo após a realização de conversas de paz mediadas pela China em Urumqi.
Os esforços diplomáticos para conter a crise têm se mostrado infrutíferos. A tentativa do Catar, da Turquia e da Arábia Saudita de aproximar Islamabad e os líderes talibãs não produziu resultados concretos. A China, cujo encontro bilateral em abril foi classificado como “positivo”, viu a tensão persistir mesmo após o anúncio de um entendimento preliminar. A Rússia, por sua vez, ofereceu-se para atuar como mediadora, conforme reportado pelo site The Diplomat, mas a proposta foi recebida com cautela por ambas as partes.
A dinâmica do conflito está ligada à atuação do Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP), grupo insurgente baseado em território afegão que reivindica ações contra alvos paquistaneses. A ofensiva militar paquistanesa, intensificada desde o início do ano, visa desmantelar células do TTP, mas tem elevado o custo civil. A coordenadora humanitária da ONU em Cabul, que pediu anonimato, ressaltou: “A proteção de civis continua sendo ignorada de forma alarmante. Hospitais, escolas e agora centros de tratamento são alvos, o que configura grave violação do direito internacional humanitário.”
O balanço da UNAMA detalha que entre as vítimas fatais há 13 mulheres, 46 crianças e 313 homens. Os dados, embora coletados a partir de testemunhos e registros hospitalares, ainda não refletem a totalidade das ocorrências em áreas de difícil acesso. O governo interino do Afeganistão qualificou os ataques como “crimes de guerra”, enquanto Islamabad defendeu o direito de resposta a ameaças transfronteiriças, sem comentar oficialmente os números civis.
Desde a volta do Talibã ao poder, a fronteira de 2.640 quilômetros entre os dois países tornou-se um barril de pólvora. A disputa histórica pela linha Durand, que o Afeganistão jamais reconheceu, e a presença de grupos militantes em ambos os lados transformaram a região no epicentro de uma crise que afeta diretamente a segurança do sul da Ásia. Com o Paquistão detentor de arsenal nuclear e o Afeganistão mergulhado em fragilidade econômica, qualquer escalada tem potencial de desestabilizar ainda mais a rota econômica do Corredor Econômico China-Paquistão.
As conversas de Urumqi, ocorridas em meados de abril, foram a terceira tentativa chinesa de pacificação em 18 meses. Diplomatas envolvidos relataram que os lados concordaram em criar um mecanismo de comunicação militar, mas a decisão não sobreviveu à primeira crise subsequente — o bombardeio à universidade. “A China está genuinamente preocupada com a expansão do extremismo na região, mas sua influência sobre os talibãs é menor do que Pequim imagina”, avaliou uma fonte diplomática que acompanha o processo.
A comunidade internacional, concentrada nas crises da Ucrânia e do Oriente Médio, dedica atenção insuficiente a um conflito que já matou mais civis afegãos em três meses do que em todo o ano de 2025. Organizações humanitárias alertam que a chegada do inverno, somada à escassez de recursos e ao bloqueio de corredores de assistência, pode elevar a cifra de vítimas indiretas a patamares de catástrofe. Enquanto as potências regionais ensaiam mediações, o sofrimento civil se acumula nas províncias orientais — e a linguagem da força parece falar mais alto que a do diálogo.
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