O Brasil registrou 806.011 acidentes de trabalho em 2025, o maior número desde 2016, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. As mortes também bateram recorde no período: 3.644 óbitos. Entre 2020 e 2025, os acidentes cresceram 65% e as mortes, 60%.
O aumento ocorre em um contexto de fragilidade da fiscalização trabalhista. Apesar da posse de 855 novos auditores-fiscais em 2025, o déficit na força de trabalho ainda é elevado. O Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (Sinait) aponta que o número ideal seria o dobro do atual.
Para especialistas, a flexibilização das relações trabalhistas após a reforma de 2017 contribuiu para o cenário. “A reforma trabalhista fragilizou a proteção ao trabalhador, ampliando a precarização e a exposição a riscos”, afirma Luiz Carlos Cavalcante, auditor-fiscal e diretor do Sinait.
Setores com piores indicadores
O setor de saúde concentrou o maior número absoluto de acidentes de trabalho em 2025, com mais de 500 mil ocorrências, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. O ambiente hospitalar, com jornadas exaustivas e exposição a riscos biológicos, explica parte do volume.
Já o setor de transportes lidera em óbitos: foram 1.847 mortes, a maioria de caminhoneiros, vítimas de acidentes rodoviários e más condições de estradas. “O caminhoneiro é o trabalhador que mais morre no Brasil. É uma tragédia anunciada”, afirmou o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho, em entrevista coletiva.
A precarização pós-reforma de 2017, com o aumento da terceirização e da informalidade, agravou os indicadores nesses segmentos, conforme aponta estudo do Ministério Público do Trabalho.
Déficit de auditores fiscais persiste
Em dezembro de 2025, o governo federal empossou 855 novos auditores-fiscais do trabalho, o maior número já registrado em um único ato, segundo o Ministério do Trabalho e Emprego. Apesar do reforço, o Brasil ainda conta com menos da metade do quadro recomendado pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que sugere um auditor para cada 10 mil trabalhadores — o país tem um para cada 24 mil.
“O aumento no número de auditores é um avanço, mas ainda estamos longe do ideal. A fiscalização precisa ser fortalecida para garantir a segurança dos trabalhadores”, afirmou o presidente do Sinait, em nota. A entidade calcula um déficit de cerca de 2.500 profissionais.
O recorde de acidentes de trabalho em 2025 — mais de 700 mil ocorrências, conforme dados oficiais — ocorre em um contexto de flexibilização das relações trabalhistas desde a reforma de 2017, que ampliou modalidades como trabalho intermitente e terceirização sem limites.
Flexibilização trabalhista e subnotificação
A Reforma Trabalhista de 2017 é apontada pelo Dieese como agravante estrutural do aumento de acidentes. A flexibilização de normas de segurança e a ampliação de contratos atípicos (intermitente, autônomo exclusivo) reduziram a proteção ao trabalhador, segundo o instituto.
Dados do Ministério do Trabalho e Emprego mostram que o número de acidentes típicos cresceu 23% entre 2017 e 2025, mas a subnotificação em setores informais dificulta o diagnóstico real — estima-se que apenas um a cada quatro acidentes seja registrado.
“A reforma de 2017 criou um ambiente propício à informalidade e à burla de direitos, o que sobrecarrega o sistema de fiscalização e escamoteia a real dimensão dos acidentes”, afirmou o diretor técnico do Dieese, Fausto Augusto Júnior. Sem uma política robusta de inspeção e reversão das flexibilizações, o recorde de 2025 pode ser apenas a ponta do iceberg.











