O governo de São Paulo suspendeu a concessão de novos empréstimos consignados pelo Banco Digimais, instituição ligada ao grupo de Edir Macedo, depois que a Polícia Federal deflagrou a Operação Miragem e obteve bloqueio de até R$ 670 milhões em bens de investigados. A medida foi assinada pelo secretário de Gestão e Governo Digital, Caio Maio Paes de Andrade, e publicada no Diário Oficial do Estado.
Na prática, servidores públicos estaduais deixam de contratar novos créditos com desconto em folha pelo Digimais enquanto a suspensão estiver em vigor. O ato administrativo atinge novas operações e não detalha impacto sobre contratos já firmados, nem informa quantos servidores mantêm vínculo de consignado com o banco.
A decisão cria uma reviravolta em relação ao credenciamento concedido em junho de 2025 pelo mesmo secretário, inicialmente para operações voltadas à Polícia Militar. Em pouco mais de um ano, o banco passou de instituição autorizada a ofertar crédito consignado a alvo de uma barreira administrativa no estado governado por Tarcísio de Freitas (Republicanos), aliado político do grupo ligado à Record.
Operação da PF pressiona credenciamento do banco
A Operação Miragem foi deflagrada em 23 de junho de 2026 para investigar suspeitas de crimes contra o sistema financeiro nacional e lavagem de dinheiro. Além do bloqueio de até R$ 670 milhões, a PF obteve a quebra de sigilos bancário e fiscal de envolvidos no caso.
As informações divulgadas sobre a investigação apontam que a governança do Digimais ficou concentrada em um núcleo ligado a Edir Macedo, fundador da Igreja Universal e controlador da Record. O banco, antes chamado Banco Renner, foi comprado por integrantes do grupo e ampliou sua atuação no mercado de crédito, incluindo o consignado.
O consignado é uma linha sensível para governos porque as parcelas são descontadas diretamente da folha de pagamento. Por isso, instituições financeiras dependem de credenciamento e de regras específicas para operar com servidores. Ao suspender novas contratações, o governo paulista evita ampliar a exposição de funcionários públicos a um banco sob investigação federal.
Aporte de R$ 2 bilhões não segura suspensão
Depois da operação da PF, o Grupo Record anunciou um aporte de R$ 2 bilhões no Digimais. A injeção de capital buscou reforçar a posição financeira do banco em meio à crise aberta pela investigação, mas não impediu o governo paulista de travar novas operações de consignado.
A suspensão também tem peso político. O Digimais havia recebido aval da gestão Tarcísio para entrar em uma área de crédito com receita previsível e baixo risco de inadimplência, justamente por envolver desconto direto em folha. Agora, o Palácio dos Bandeirantes tenta se afastar administrativamente de uma instituição que se tornou foco de investigação da PF.
O que muda para os servidores estaduais
A suspensão impede o Digimais de fechar novos contratos de empréstimo consignado com servidores do estado. Quem buscava crédito pelo banco terá de recorrer a outras instituições financeiras credenciadas pelo governo paulista.
Contratos já assinados não aparecem como alvo direto da medida, mas o governo não detalhou se haverá algum procedimento adicional para operações em andamento. Sem prazo público para revisão da suspensão, o Digimais fica fora de novas contratações no consignado estadual enquanto a investigação federal avança e o governo paulista mantém a trava administrativa.










