sábado, 18 de julho de 2026
Publicidade
Estudo do Ipea e FBSP estima que subnotificação eleva taxa real de 20,1 para 23,4 por 100 mil habitantes; Amapá lidera ranking

Atlas da Violência 2026: 7 mil homicídios ocultos no Brasil

Estudo do Ipea e FBSP estima que subnotificação eleva taxa real de 20,1 para 23,4 por 100 mil habitantes; Amapá lidera ranking

· 4 min de leitura · Atualizado em 31.05.2026 · NEXUS A.I. do PIRANOT e Júnior Cardoso

Pontos-chave

  • Os homicídios ocultos são mortes registradas como causas indeterminadas por falta de investigação criminal, não contabilizadas como homicídios.
  • A queda de 6,9% nos casos registrados em relação a 2023 pode refletir falha de classificação, não redução real da violência.
  • Estados com estrutura de perícia deficiente tendem a inflar o volume de mortes indeterminadas, distorcendo os índices nacionais.
  • A subnotificação prejudica a distribuição de verbas do Fundo Nacional de Segurança Pública entre os estados.
  • O Amapá liderou o ranking nacional em 2024, com taxa de 45,7 homicídios por 100 mil habitantes.

O Atlas da Violência 2026, divulgado em 26 de maio pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), estima que o Brasil registrou 7 mil homicídios ocultos em 2024 — mortes violentas classificadas como causas indeterminadas no Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde, mas que, por critérios estatísticos, têm alta probabilidade de serem homicídios. Com a reclassificação, o total real de vítimas salta de 42.590 para aproximadamente 49.590, e a taxa oficial de homicídios por 100 mil habitantes sobe de 20,1 para 23,4. O número de casos ocultos praticamente dobrou em relação a 2023, atingindo o maior patamar da série histórica do Atlas, iniciada em 2016.

Publicidade

O estudo define homicídios ocultos como “mortes violentas cuja causa fundamental foi classificada como indeterminada pela declaração de óbito, mas que, por critérios estatísticos, têm alta probabilidade de serem homicídios”. O método cruza os registros do SIM com os boletins de ocorrência das secretarias estaduais de segurança, identificando discrepâncias entre o que os serviços de saúde registram como morte violenta e o que as polícias qualificam como homicídio doloso. A subnotificação é mais grave em estados com menor capacidade forense, onde a perícia criminal é precária ou inexistente em parte dos municípios. Os 42.590 homicídios oficialmente registrados em 2024 representam queda de 6,9% em relação aos 45.747 casos de 2023, mas os pesquisadores advertem que parte dessa redução pode ser artificial, pois estados com estrutura pericial insuficiente tendem a classificar mais mortes como indeterminadas, esvaziando os índices oficiais sem que a violência real diminua.

Amapá lidera e Norte e Nordeste concentram déficit de perícia

Com taxa de 45,7 homicídios por 100 mil habitantes em 2024, o Amapá registrou o índice mais elevado do país — mais que o dobro da média nacional oficial. Estados do Norte e Nordeste, que já figuram com as maiores taxas no levantamento, são também os mais expostos à subnotificação, pela carência de institutos de criminalística capazes de qualificar mortes violentas com precisão. A consequência é um ciclo que se retroalimenta: menos perícia produz menos homicídios registrados, o que pode reduzir o aporte federal para essas regiões via Fundo Nacional de Segurança Pública — mesmo que a violência real se mantenha elevada. O Atlas destaca que a magnitude dos homicídios ocultos cresceu de forma expressiva em relação às edições anteriores, aprofundando o fosso entre as estatísticas oficiais e a realidade enfrentada por essas populações.

Publicidade

Em contraste, estados do Sul, com estruturas de perícia mais consolidadas, apresentam taxas de subnotificação mais baixas. Santa Catarina, por exemplo, registrou taxa oficial de 9,8 homicídios por 100 mil habitantes, uma das menores do país, enquanto Bahia e Pará, com altos índices de homicídios ocultos, sofrem com defasagem na perícia criminal. O Atlas ressalta que a distribuição de recursos federais de segurança tem se baseado nas estatísticas oficiais, que ignoram os homicídios ocultos, prejudicando justamente os estados que mais precisam de investimento forense.

Ministério da Justiça e estados não se pronunciam

O Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pela coordenação das políticas de segurança e pela distribuição de recursos federais, não se pronunciou publicamente sobre medidas para enfrentar a multiplicação dos homicídios ocultos. Também não há posicionamento do Ministério da Saúde, que alimenta o SIM, sobre possíveis revisões retroativas das classificações. A ausência de respostas oficiais impede avaliar se há cronograma para ampliar a capacidade investigativa e forense dos estados mais afetados. Enquanto governos federal e estaduais não apresentarem encaminhamentos concretos, os cerca de 7 mil casos permanecem fora das estatísticas oficiais de homicídio — e fora do alcance das políticas públicas que deveriam responder por eles.

Publicidade

O Atlas da Violência 2026 baseia-se exclusivamente no cruzamento de dados e não inclui declarações de autoridades ou especialistas. A ausência de citações diretas limita a contextualização qualitativa, mas o estudo compensa com a robustez da base de dados e a consistência da série histórica, metodologia revisada por pares e amplamente referendada pela comunidade acadêmica. Para aprofundar o debate sobre segurança pública, consulte o acervo de análises do PIRANOT.


Publicidade