Representantes dos governos do Brasil e dos Estados Unidos reuniram-se nesta terça-feira (26) em Brasília para avançar a cooperação na exploração e processamento de minerais críticos em território brasileiro, em um movimento que reflete a reorganização das cadeias globais de suprimento diante da transição energética e das tensões comerciais com a China. O evento “Diálogo sobre Minerais Críticos”, promovido pela Amcham Brasil (Câmara Americana de Comércio no Brasil), pelo Citi e pela Câmara de Comércio dos Estados Unidos, reuniu autoridades regulatórias, membros do governo brasileiro, representantes do Congresso Nacional e instituições financeiras internacionais.
O encontro contou com a presença de Gabriel Escobar, encarregado de negócios da Embaixada dos Estados Unidos no Brasil, além de representantes da Agência Nacional de Mineração (ANM) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). As discussões abordaram regulação, investimentos, financiamento, processamento mineral e agregação de valor — temas centrais para que o Brasil deixe de atuar apenas como fornecedor de matéria-prima e passe a ocupar posição estratégica na cadeia produtiva global.
“O Brasil é um gigante geológico que ainda se comporta como um player emergente.”
Tom Moerenhout, pesquisador da Universidade de Colúmbia
A avaliação resume o desafio brasileiro: o país possui a segunda maior reserva de elementos de terras-raras do mundo, mas ainda não consegue converter esse potencial em vantagem competitiva na industrialização dos minerais. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil detém cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de elementos de terras-raras, recurso essencial para a produção de baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas e componentes de inteligência artificial.
Disputa global por recursos estratégicos
A disputa por esses minerais intensificou-se nos últimos anos com a aceleração da transição energética global e a guerra comercial entre Washington e Pequim. A China controla aproximadamente 60% da produção mundial de terras-raras e domina o processamento desses elementos, o que representa risco estratégico para países que buscam diversificar suas fontes de suprimento. Segundo declarações de autoridades americanas, o governo dos EUA já mapeou cerca de 50 projetos de minerais críticos no Brasil, com investimentos da ordem de US$ 600 milhões aplicados em iniciativas no país.
O contexto diplomático merece atenção. Em março, autoridades brasileiras não participaram de evento organizado pelos Estados Unidos em São Paulo, segundo fontes do setor, em meio a tensões no relacionamento bilateral. O encontro desta terça-feira em Brasília sinaliza uma retomada do diálogo no setor mineral, paralelamente aos acordos firmados pelo Brasil com Índia e Coreia do Sul para diversificar parcerias na área.
Marco legal em tramitação no Congresso
Enquanto o diálogo internacional avança, o Congresso Nacional processa o marco legal para minerais críticos. A Câmara dos Deputados aprovou o texto em maio, com previsão de R$ 7 bilhões em incentivos ao setor. A proposta aguarda análise no Senado e busca criar condições para que o Brasil agregue valor à cadeia produtiva, em vez de apenas exportar minério bruto. A legislação prevê mecanismos de financiamento, incentivos fiscais e regulação específica para atrair investimentos em processamento mineral.
Não houve anúncios de acordos ou memorandos específicos durante o evento em Brasília. A expectativa, segundo participantes, é que as discussões sobre segurança de suprimento e investimentos continuem nos próximos meses. O posicionamento brasileiro frente à reorganização das cadeias produtivas globais permanece sob atenção de investidores internacionais e do setor mineral.
Leia mais sobre o tema no acervo do PIRANOT: Brasil acelera na corrida global dos minerais críticos.











