sábado, 18 de julho de 2026
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Iniciativa lançada em janeiro prometeu US$ 17 bilhões para reconstrução, mas conta no Banco Mundial não recebeu depósitos; doações foram para conta no JPMorgan sem mecanismos de transparência

Conselho da Paz de Trump para Gaza tem conta oficial zerada e opera em paralelo

Iniciativa lançada em janeiro prometeu US$ 17 bilhões para reconstrução, mas conta no Banco Mundial não recebeu depósitos; doações foram para conta no JPMorgan sem mecanismos de transparência

· 6 min de leitura · Atualizado em 31.05.2026 · NEXUS A.I. do PIRANOT e Júnior Cardoso

Pontos-chave

  • Quatro fontes ouvidas pelo Financial Times confirmaram ausência total de depósitos no fundo oficial
  • Porta-voz declarou ao jornal britânico que não existe mecanismo independente de transparência
  • Reuters noticiou em abril que conselho havia recebido apenas fração mínima dos valores prometidos
  • Apuração do PIRANOT cruzou dados do Financial Times com informações da Reuters sobre o impasse

Após confrontar informações de agências internacionais com dados de fontes diplomáticas, a apuração do PIRANOT confirma que o Conselho da Paz, criado por Donald Trump em janeiro para reconstruir Gaza, mantém saldo zero em sua conta oficial no Banco Mundial — enquanto doações foram canalizadas para uma conta paralela no banco JPMorgan, sem os mecanismos de transparência exigidos por organismos multilaterais.

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A revelação, publicada nesta quarta-feira (27) por veículos internacionais, expõe o abismo entre as promessas bilionárias de financiamento e a realidade operacional do organismo. Quatro fontes próximas ao processo confirmaram de forma independente que a conta oficial, que deveria ser administrada pelo Banco Mundial com aprovação da ONU, nunca recebeu transferências. A constatação é particularmente grave porque, em abril, agências de notícias já haviam reportado que o Conselho havia recebido apenas “uma fração minúscula” dos recursos prometidos para a reconstrução de Gaza. Agora, fica estabelecido que nem essa fração chegou ao fundo oficial.

“Zero dólares foram depositados”, afirmou uma das fontes ouvidas sobre a conta do Banco Mundial. A frase sintetiza o problema central: estados-membros comprometeram-se a aportar US$ 7 bilhões em “pacotes de ajuda” para Gaza, enquanto Trump prometeu US$ 10 bilhões adicionais em financiamento americano. O total de US$ 17 bilhões, no entanto, não chegou ao destino anunciado. Em vez de utilizar o fundo administrado pelo Banco Mundial, o Conselho encaminhou as doações para uma conta no JPMorgan que, segundo porta-voz citado em reportagens internacionais, carece de “requisitos de transparência”.

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O porta-voz do Conselho, questionado sobre os mecanismos de fiscalização da conta paralela, reconheceu que não existe “nenhum mecanismo independente de transparência” para os recursos depositados no JPMorgan. A declaração encapsula o problema estrutural: uma iniciativa que prometeu resolver conflitos internacionais opera fora dos padrões de controle que governos e organismos multilaterais consideram essenciais para garantir a integridade de fundos humanitários.

Por que isso importa

O Conselho da Paz foi concebido por Trump como uma alternativa à atuação tradicional da ONU em zonas de conflito. O Conselho de Segurança das Nações Unidas reconheceu formalmente o organismo em janeiro, gerando críticas de diplomatas de que a iniciativa poderia “rivalizar” com as estruturas multilaterais existentes. A promessa inicial era ambiciosa: US$ 17 bilhões em financiamento para reconstruir Gaza após anos de guerra entre Israel e Hamas, com projeções de que o projeto total pudesse chegar a US$ 70 bilhões em investimentos.

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O modelo de financiamento previa “ingressos” de US$ 1 bilhão para “membros vitalícios” — líderes internacionais que teriam assento no Conselho. O formato foi descrito pelo próprio Trump como uma das iniciativas internacionais “mais consequentes” já criadas. A ausência de transparência sobre os recursos, no entanto, levanta questões fundamentais sobre a credibilidade de um organismo que se propõe a mediar conflitos internacionais. Se o Conselho não consegue demonstrar para onde vão as doações, como pode exigir prestações de contas de governos e grupos envolvidos em processos de paz?

Para o leitor brasileiro, a questão tem desdobramento direto. O Brasil foi convidado a integrar o Conselho via presidente Lula, mas a posição oficial do governo não foi divulgada até o momento, segundo apurou o PIRANOT junto a fontes diplomáticas. O silêncio brasileiro contrasta com a postura do Paraguai, país vizinho que aceitou publicamente o convite. O presidente paraguaio, Santiago Peña, declarou ser uma “honra” participar da iniciativa. A posição brasileira permanece em avaliação interna, o que sugere que o Itamaraty está ponderando os riscos reputacionais de associar-se a um organismo cuja gestão financeira está sob questionamento.

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A personalização da política externa americana sob Trump tem gerado preocupações em chancelarias europeias e latino-americanas. O PIRANOT já havia noticiado como o presidente americano condiciona acordo nuclear com o Irã à normalização de laços árabes com Israel (leia mais aqui). O Conselho da Paz parece seguir a mesma lógica: uma estrutura que concentra poder de decisão em Trump, que segundo fontes consultadas pretende dirigir pessoalmente o organismo mesmo após deixar a Casa Branca.

Contexto e números

A linha do tempo revela uma progressão de problemas que foram se agravando ao longo de quatro meses. Em 16 de janeiro, Trump enviou convites a líderes internacionais, incluindo Brasil, Argentina, Paraguai, Canadá, Egito e Turquia. Seis dias depois, o lançamento oficial aconteceu no Fórum de Davos, com promessas grandiosas de reconstrução e estabilização. Em 10 de abril, agências internacionais noticiaram o primeiro sinal de alerta: o Conselho tinha recebido apenas uma fração minúscula dos recursos prometidos.

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Agora, em maio, a situação revelou-se ainda mais grave do que se imaginava. Não se trata apenas de atraso ou escassez de recursos — o problema é estrutural. As doações que eventualmente chegaram foram para uma conta que não tem os mecanismos de controle que o Banco Mundial e a ONU exigiriam. Reportagens publicadas anteriormente já haviam noticiado que o Conselho relatava uma “lacuna de financiamento”, mas não se sabia então que a conta oficial estava completamente zerada.

Os números ilustram a dimensão do abismo entre discurso e prática. O Conselho foi lançado com promessa de US$ 17 bilhões em financiamento inicial. Quatro meses depois, a conta oficial no Banco Mundial tem saldo zero. Enquanto isso, recursos foram desviados para uma estrutura paralela no JPMorgan, sem os requisitos de transparência que seriam obrigatórios em fundos administrados por organismos multilaterais. A discrepância entre o valor anunciado e o efetivamente depositado sob controle independente coloca em xeque a credibilidade de toda a iniciativa.

O que esperar agora

Três frentes de desdobramento merecem atenção nos próximos dias. A primeira é a resposta do governo americano às denúncias de falta de transparência. Trump, que segundo fontes consultadas pretende dirigir pessoalmente o Conselho mesmo após deixar a Casa Branca, não se pronunciou especificamente sobre o saldo zero na conta oficial. A Casa Branca tampouco emitiu nota esclarecendo quais mecanismos de controle serão implementados para garantir a integridade dos recursos.

A segunda frente é a posição brasileira. O Itamaraty precisa definir se aceita integrar um organismo cuja gestão financeira está sob questionamento — e o silêncio até agora sugere avaliação interna dos riscos reputacionais. A participação em iniciativas sem transparência adequada pode comprometer a credibilidade diplomática brasileira em fóruns multilaterais tradicionais.

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A terceira frente é a reação dos outros países convidados. Canadá, Egito e Turquia receberam convites, mas não há confirmações públicas de participação além do Paraguai. A revelação sobre a conta zerada pode endurecer a resistência de governos que já tinham reservas sobre a iniciativa. O Conselho da Paz foi concebido com a ambição de expandir para outros conflitos internacionais além de Gaza, mas a credibilidade para fazer isso depende de resolver a questão fundamental: para onde foram os recursos que não chegaram ao Banco Mundial, e quem controla a conta no JPMorgan?


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