Após duas décadas de ocupação irregular, o Edifício Peixoto Gomide, exemplar art-déco de 1952 na esquina da Oscar Freire com a Peixoto Gomide, foi desocupado em 6 de maio. A reintegração de posse, executada pela Polícia Militar de forma pacífica, retirou 33 famílias que viviam no local em condições insalubres. O cenário revelado foi de deterioração: lixo acumulado, fiação clandestina e risco de desabamento.
Vistorias da Prefeitura de São Paulo apontaram cheiro de urina e fezes, ausência de rotas de fuga e instalações elétricas improvisadas. Essas condições colocavam em risco os moradores e a estrutura do prédio de três andares. Construído há 74 anos com nove apartamentos originais, o imóvel teve seus ambientes descaracterizados por divisórias e acúmulo de entulho.
Disputa judicial de quase 20 anos
Por trás da ocupação, há uma batalha judicial que se arrasta por quase duas décadas. A construtora Santa Alice detém 7 das 9 unidades do edifício, mas dois antigos condôminos resistem à venda: a psicóloga Mathilde Neder e um proprietário que, há uma década, negociou sua fração com um terceiro não identificado. O Tribunal de Justiça de São Paulo chegou a apontar, em decisão, que a própria construtora teria incentivado a invasão para pressionar os demais donos a vender – alegação que a empresa nega.
A Santa Alice iniciou a aquisição dos apartamentos há 26 anos com planos de demolir o prédio e erguer um empreendimento de luxo na região mais valorizada da cidade. A resistência dos dois condôminos, porém, barrou o projeto. Agora, após a desocupação, a empresa afirma que fará um retrofit para alugar os imóveis, enquanto Mathilde Neder busca na Justiça o reconhecimento de seu direito de posse.
Destino das famílias e impasse jurídico
As 33 famílias desalojadas não receberam solução habitacional definitiva. Parte se abrigou em outra ocupação na Rua Pamplona, a poucos quarteirões dali, e outras foram para casas de parentes. A Prefeitura informou que paga auxílio-aluguel às famílias cadastradas, mas movimentos de moradia criticam a falta de alternativas permanentes.
Enquanto o impasse jurídico continua, o pequeno prédio art-déco – um dos últimos resquícios da arquitetura dos anos 1950 nos Jardins – segue degradado, com janelas quebradas e a fachada pichada. Seu destino ainda depende das decisões da Justiça e da negociação entre os proprietários.











