quarta-feira, junho 3
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Júnior Cardoso
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Júnior Cardoso

Diretor, editor chefe e jornalista do PIRANOT. Começou a trabalhar em 2007, aos 14 anos, quando lançou seu primeiro blog...

Três colunas, um diagnóstico: Piracicaba perdeu força política

· 5 min de leitura

Pontos-chave

  • Clóvis Vaz e Dr. Pacheco convergiram na mesma quinzena: o município produz riqueza mas não tem voz em Brasília.
  • Barjas Negri mostrou que Piracicaba gerou 24.821 empregos formais entre 2021 e 2025 — 3º melhor ciclo da história.
  • Enquanto a economia cresce, as internações por Influenza dobraram na cidade e o hantavírus Andes fez a primeira vítima no Brasil.
  • Nove colunistas passaram pelo PIRANOT na quinzena; a qualidade do debate local é inegável, mas falta quem leve a pauta ao Congresso.

Há três edições, quando estreou o novo formato desta coluna, eu disse que meu papel aqui seria amarrar as pontas. O PIRANOT publica, a cada quinzena, uma quantidade impressionante de análise de qualidade — vozes diferentes, formações diferentes, estilos diferentes. Meu trabalho não é resumi-las. É encontrar o que elas dizem juntas, mesmo quando não combinaram nada entre si.

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Pois bem. Nesta quinzena, dois colunistas que habitam extremos diferentes do espectro político publicaram, com poucos dias de intervalo, variações do mesmo diagnóstico. E um terceiro, ex-prefeito que governou a cidade no período mais turbulento do século, entregou os dados que provam que os dois primeiros têm razão. Não me lembro de outra quinzena com tanta convergência involuntária.

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O diagnóstico que une Clóvis e Pacheco

Clóvis Vaz abriu a semana com um texto que muitos leram como aula de teoria política — e era. Em “Por um novo pacto federativo: É no município que a vida acontece”, ele articulou o que prefeitos de todas as cores partidárias repetem em conversas privadas mas raramente conseguem transformar em pauta nacional: a arquitetura tributária brasileira concentra arrecadação na União e empurra a execução para os municípios. O cidadão não interage com o Estado abstrato — ele interage com o posto de saúde, a creche, a rua esburacada. E quem responde por isso é a prefeitura, não o ministério.

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Clóvis foi buscar Tocqueville e Hannah Arendt para lembrar que as instituições locais são a base da liberdade política. E defendeu, com pragmatismo, que os consórcios intermunicipais — desses que a nossa cidade já integra — são a solução mais viável para cidades de médio porte que não conseguem, sozinhas, bancar serviços especializados.

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Poucos dias depois, Dr. Sérgio Pacheco publicou Piracicaba: o resgate da identidade regional em Brasília”. O vice-prefeito foi à jugular: há quatro mandatos consecutivos, a nossa Região Metropolitana — 24 municípios — não tem uma voz própria no Congresso Nacional. “Quando o debate político se afasta da realidade local, corre-se o risco de priorizar pautas que não reflitam as urgências da nossa população”, escreveu.

Pacheco lembrou que já tivemos três representantes da região simultaneamente em Brasília. E citou Edmund Burke: “um povo que não olha para trás, para os seus antepassados, não olhará para a frente, para a sua posteridade”. A frase não é floreio. É um diagnóstico duro: perdemos memória política, perdemos capacidade de articulação, e agora perdemos espaço.

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O que Clóvis Vaz descreveu como distorção estrutural, Pacheco traduziu como ausência de representação. São dois lados do mesmo problema.

Barjas e os números que provam o ponto

A cidade produz análise, produz riqueza — Barjas Negri mostrou os números com clareza no seu Piracicaba voltou a crescer depois de 2020” — mas não consegue converter isso em poder político.

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Barjas trouxe dados que merecem ser lidos com atenção. Piracicaba gerou 24.821 empregos formais entre 2021 e 2025, uma média de quase 5 mil por ano. É o terceiro melhor ciclo de geração de emprego da história da cidade, atrás apenas do boom de 2005-2008 e da recuperação de 2010-2013. O ex-prefeito está certo em comemorar: depois de perder 1.322 empregos em 2020, a cidade virou o jogo com força. A economia brasileira cresceu 17,4% acumulado em cinco anos — algo que não se via há décadas. E Piracicaba acompanhou.

Mas há uma ironia nos números de Barjas que ele mesmo conhece bem. O homem que governou a cidade durante a pandemia sabe que a recuperação econômica que ele descreve depende de uma estrutura de saúde pública que, neste exato momento, está sob pressão. Na semana em que a coluna de Barjas foi publicada, a Vigilância Epidemiológica registrava que as internações por Influenza mais que dobraram em Piracicaba. E, no mesmo período, a Organização Mundial da Saúde lidava com um surto de hantavírus Andes — três mortos a bordo de um navio de cruzeiro no Atlântico, o único hantavírus com transmissão comprovada entre humanos, e a primeira morte confirmada em território brasileiro neste final de semana.

A OMS fez questão de dizer que não é uma nova COVID. E não é. Mas o que Clóvis, Pacheco e Barjas escreveram — cada um do seu jeito — converge para um ponto simples: são os municípios que seguram a ponta quando o inesperado acontece. E seguram com os recursos que têm, não com os que precisam.

O resto da quinzena

Danilo Olegario, em “A epidemia da distração”, diagnosticou o que todo mundo sente mas poucos conseguem nomear: o ruído das redes está corroendo nossa capacidade de prestar atenção. Profa. Bebel, na semana anterior, alertou em “A democracia continua sob ataque” que o perigo não vem só de fora — vem da apatia de dentro. Alex Madureira defendeu o valor do cuidado na ação pública. Vinicius Marchese lembrou que onde há engenharia, há transformação. Gustavo Alves resgatou a Vila Nova que resiste ao tempo com seu comércio centenário. E Fernanda Maestro, na sua “Entre o cinema e o streaming”, abriu a coluna com uma frase que resume melhor do que qualquer editorial o espírito do nosso tempo: “acompanhar o que realmente está chamando atenção acabou virando quase uma missão”. Ela falava de filmes. Poderia estar falando de política, de saúde, de jornalismo.

Do lado de fora da porta

A quinzena me deixou com uma certeza e uma pergunta. A certeza: Piracicaba nunca debateu tão bem os seus próprios problemas como agora. Clóvis trouxe a teoria, Pacheco a prática política, Barjas os dados. A qualidade do pensamento local é inegável.

A pergunta é outra: quem está levando esse pensamento para onde as decisões são tomadas? Porque a próxima pandemia, a próxima reforma tributária, o próximo orçamento federal — tudo isso será decidido com ou sem a presença de Piracicaba na mesa. E, como esta quinzena demonstrou com clareza, atualmente estamos do lado de fora da porta. Olhando pela fechadura, produzindo análise de primeira linha. Mas do lado de fora.


Esta coluna é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras, por Júnior Cardoso, diretor-fundador e editor-chefe do PIRANOT.

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Júnior Cardoso
Sobre o colunista

Júnior Cardoso

Diretor, editor chefe e jornalista do PIRANOT. Começou a trabalhar em 2007, aos 14 anos, quando lançou seu primeiro blog na internet. Em 2011, criou o PIRANOT e fez parte, por três anos, de um programa da extinta TV Beira Rio. Estudou jornalismo na UNIMEP e assessoria de imprensa no SENAC. Fez estágio na Câmara de Vereadores e teve passagens por duas rádios de Piracicaba.

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