A Polícia Federal investiga a presença de Fernando Cavendish, empresário condenado na Operação Lava Jato, em um voo executivo que transportou o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e o senador Ciro Nogueira (PP-PI) de São Martinho, no Caribe, para o Brasil. A viagem é alvo de inquérito por suspeita de contrabando e facilitação de entrada de mercadorias sem fiscalização, após um auditor da Receita Federal liberar cinco malas sem inspeção de raio-X. Cavendish, ex-dono da Delta Construções, cumpriu pena por corrupção e lavagem de dinheiro e ficou conhecido no episódio da “farra dos guardanapos”, em 2009, quando destruiu notas fiscais durante uma fiscalização. Sua participação no voo levanta questionamentos sobre a natureza da viagem e o acesso privilegiado a autoridades.
Investigação sobre o voo e as malas sem inspeção
O caso veio à tona quando a Polícia Federal abriu inquérito para apurar a conduta de um servidor da Receita Federal que liberou bagagens sem a inspeção obrigatória de raio-X em um voo que partiu de Brasília com destino a João Pessoa, em 2025. A aeronave havia chegado ao Brasil vinda de São Martinho, território ultramarino francês no Caribe considerado paraíso fiscal. Além de Hugo Motta e Ciro Nogueira, estavam a bordo os deputados federais Wilson Santiago (Republicanos-PB) e Aguinaldo Ribeiro (PP-PB). A suspeita é de que cinco malas tenham ingressado no país sem qualquer verificação, o que configura, em tese, crime de contrabando ou descaminho. “A PF apura se houve facilitação para entrada de produtos irregulares no país”, informou a corporação em nota. O auditor responsável pela liberação foi afastado das funções, e o caso gerou representações no Ministério Público Federal e no Tribunal de Contas da União.
A investigação ganhou novo contorno com a descoberta de que entre os passageiros estava Fernando Cavendish, condenado em desdobramentos da Lava Jato. Registros de embarque e fontes próximas à apuração confirmaram sua presença no voo. Cavendish foi sentenciado a 10 anos de prisão em 2016 por envolvimento no cartel de empreiteiras que fraudou licitações da Petrobras. Ele também protagonizou a “farra dos guardanapos”, quando, durante uma fiscalização em um restaurante no Rio de Janeiro, rasgou notas fiscais para evitar autuação. Após delação premiada, cumpriu pena em regime domiciliar e teve a punição extinta em 2024. Sua participação na viagem levanta dúvidas sobre o propósito do deslocamento e eventuais benefícios obtidos por meio de contatos políticos.
Repercussão política e desdobramentos
A revelação de que um condenado por corrupção viajou com o presidente da Câmara em um voo sob suspeita de irregularidades aduaneiras amplia o escopo da crise política que envolve Hugo Motta. O parlamentar já enfrenta desgaste por outras investigações, como o suposto uso de aviões da FAB para fins pessoais. A oposição cobra explicações e promete acionar a Comissão de Ética da Câmara. “É grave que o presidente da Câmara mantenha relações tão próximas com personagens notoriamente envolvidos em escândalos de corrupção”, afirmou o deputado Kim Kataguiri (União-SP).
Para analistas, o episódio expõe a fragilidade dos controles alfandegários e o risco de tráfico de influência em voos com autoridades. “A presença de um condenado da Lava Jato nesse contexto sugere que as conexões políticas podem ter facilitado o acesso a benefícios indevidos”, avalia o cientista político Cláudio Couto, da FGV. A Polícia Federal ainda não concluiu o inquérito, mas o caso já gerou representações no Ministério Público Federal e no Tribunal de Contas da União. Hugo Motta nega irregularidades e afirma que a viagem foi estritamente política, sem conhecimento do histórico dos demais passageiros. O senador Ciro Nogueira também minimizou a polêmica, dizendo que “não há nada de errado” e que a presença de Cavendish foi mera coincidência.











