Editores online do Reino Unido poderão retirar seu conteúdo dos AI Overviews do Google sem perder espaço nos resultados tradicionais de busca, decidiu a Competition and Markets Authority (CMA) nesta quarta-feira (3). A medida separa, pela primeira vez no mercado britânico, a indexação na pesquisa do uso de textos para alimentar respostas geradas por inteligência artificial.
A decisão atinge o núcleo da queixa apresentada por veículos jornalísticos desde 2024: a de que o resumo automatizado no topo da pesquisa reduz cliques para os sites de origem e reaproveita material editorial sem contrapartida. Ao desacoplar os dois usos, a CMA devolve aos editores a faculdade de decidir o que entra — e o que fica de fora — do produto de IA da Alphabet.
Segundo a CMA, a mudança coloca os editores, “como organizações de notícias, em posição mais forte para negociar acordos de conteúdo com o Google”. O regulador não divulgou o desenho técnico do mecanismo de opt-out nem o modelo de fiscalização que vai acompanhar o cumprimento. O Google não comentou publicamente a decisão.
De AI Overviews a mercado estratégico
O confronto se acumula desde 2024, quando o Google passou a exibir os AI Overviews no topo dos resultados de busca. Editores britânicos e internacionais relataram queda de tráfego e uso de conteúdo jornalístico sem compensação direta, o que abriu espaço para a ação do regulador.
Em 1º de outubro de 2025, a CMA atribuiu ao Google o “strategic market status” em serviços de busca, classificação que autoriza intervenções específicas no mercado britânico. Em 18 de março de 2026, a própria empresa apresentou uma proposta de controles de opt-out, agora formalizada pelo regulador. A sequência mostra um arranjo construído em etapas, com pressão regulatória crescente sobre a operação da Alphabet no país.
Decisão vale só no Reino Unido
A medida atinge apenas o Reino Unido e não cria obrigação automática em outros mercados. No Brasil, o Cade recomendou em abril de 2026 a abertura de investigação sobre o uso de conteúdo jornalístico pelo Google; o precedente britânico pode municiar editores locais, mas não substitui uma decisão doméstica.
A eficácia prática da decisão dependerá de como o opt-out será operacionalizado e de eventual auditoria técnica sobre seu cumprimento. A CMA afirmou que monitorará o efeito da medida sobre o tráfego dos editores, métrica que tende a definir se o instrumento se converte, de fato, em poder de barganha.











