Seis em cada dez family offices pesquisados pelo UBS planejam mudar a alocação estratégica de seus portfólios em 2026, o maior porcentual já registrado pelo banco suíço nesse acompanhamento e quase o dobro dos 35% apurados no ciclo anterior. O movimento, descrito pelo banco como uma corrida por resiliência diante de risco geopolítico e desconfiança no dólar, acontece em paralelo a uma entrada recorde de capital estrangeiro em ativos brasileiros.
Os dados estão no Global Family Office Report 2026, divulgado pelo UBS em 28 de maio. A pesquisa ouviu 307 estruturas em mais de 30 países, entre 22 de janeiro e 30 de março, que administram em média US$ 2,7 bilhões por família — um universo que, somado, movimenta patrimônio relevante para definir tendências globais de preço, câmbio e juros.
Para onde vai o dinheiro dos super-ricos
O ponto central da virada é o dólar. Segundo o relatório, 65% dos family offices esperam fraqueza da moeda americana, 48% se consideram sobreexpostos a ela e 29% afirmam estar reduzindo essa exposição. A contrapartida aparece no ouro, que deve subir de 2% para 3% da alocação média — um aumento aparentemente modesto, mas expressivo quando aplicado a carteiras bilionárias.
Os ajustes não param aí. A fatia destinada a imóveis recua de 11% para 8% e a de private equity, de 21% para 18%, sinal de busca por liquidez. Em paralelo, 65% dos pesquisados já mantêm exposição a inteligência artificial, tema apontado como uma das poucas apostas estruturais preservadas em meio ao recuo dos ativos tradicionais.
Risco geopolítico é citado por 64% dos family offices como principal ameaça de curto prazo e por 61% no horizonte mais longo. A dívida soberana preocupa 31% agora e 56% à frente, enquanto o temor de recessão salta de 17% no curto prazo para 50% no longo. “Os family offices estão diversificando entre ativos, moedas e regiões, sem abrir mão da exposição a temas de longo prazo”, afirmou Benjamin Cavalli, do UBS Global Wealth Management, ao apresentar o levantamento.
O que muda para o Brasil, Bolsa e câmbio
A reorientação global coincide com um dos fluxos externos mais fortes da década para o Brasil. Dados do Banco Central mostram ingresso líquido de US$ 3,132 bilhões em ações brasileiras em fevereiro de 2026, alta de cerca de 290% ante o mesmo mês de 2025. No bimestre, o investimento estrangeiro em ações somou US$ 6,884 bilhões.
O movimento é ainda mais intenso na renda fixa. O Banco Central registrou entrada líquida de US$ 2,579 bilhões em fevereiro, avanço de 5.273% na comparação anual, e US$ 9,518 bilhões no acumulado de janeiro e fevereiro. Esses números confirmam apetite externo por ativos brasileiros, mas não permitem afirmar que os recursos venham especificamente dos family offices descritos pelo UBS.
Na Bolsa, o fluxo estrangeiro somou R$ 57 bilhões entre janeiro e abril de 2026, após saída líquida de R$ 24,1 bilhões em 2024, segundo levantamento da Quantum Finance com dados da B3. A participação estrangeira no mercado à vista passou de 58,30% em 2025 para 61,20% neste ano — patamar que ajuda a sustentar preços de ações, pressiona o câmbio para baixo e influencia juros futuros.
Para o investidor brasileiro, o sinal é duplo. De um lado, a entrada externa tende a beneficiar empresas exportadoras, commodities e papéis líquidos do Ibovespa. De outro, deixa o mercado mais sensível a uma reversão repentina caso a percepção fiscal piore — risco já presente após o governo bloquear R$ 23,7 bilhões no Orçamento de 2026, conforme PIRANOT mostrou.
O que ainda falta confirmar
O UBS descreve uma mudança global de alocação; a conexão direta com o mercado brasileiro depende de novos dados. Não há, até aqui, publicação oficial que detalhe a origem final dos recursos por tipo de investidor, o que impede afirmar quanto desse capital vem efetivamente dos family offices ouvidos pelo banco suíço.
O próximo termômetro será a divulgação dos fluxos de março e abril pelo Banco Central e a leitura mensal da B3, que dirão se a entrada externa se sustenta diante do cenário fiscal doméstico e da política monetária dos Estados Unidos. Até lá, a coincidência entre a virada descrita pelo UBS e o ingresso recorde de capital no Brasil continua sendo um sinal forte — não uma relação de causa comprovada.











