Florestas primárias da Amazônia preservam biodiversidade superior à de florestas secundárias mesmo quando degradadas por fogo ou corte seletivo, segundo estudo da Lancaster University publicado na Science Advances em 26 de outubro de 2025. A pesquisa contou com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP), que divulgou os resultados em sua agência de notícias.
O trabalho, coordenado pelo pesquisador Cássio Alencar Nunes, mediu três dimensões da biodiversidade — taxonômica, funcional e filogenética — em florestas primárias intactas, primárias degradadas e secundárias na Amazônia. A conclusão desfaz uma premissa recorrente em debates de política ambiental: “Nossos achados demonstram que mesmo florestas primárias perturbadas abrigam diversidade taxonômica, funcional e filogenética superior à de florestas secundárias de qualquer idade”, registra o artigo. A FAPESP destacou a relevância dos achados para políticas de conservação no Brasil.
O achado pressiona diretamente instrumentos como o Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia (PPCDAm) e o debate em torno do Código Florestal. A tese de que reflorestamento compensa o desmatamento de floresta primária — argumento recorrente em negociações legislativas e em programas de compensação ambiental — perde sustentação científica diante dos três indicadores medidos na pesquisa. O Brasil, maior detentor de floresta amazônica do planeta, enfrenta pressão internacional para zerar o desmatamento, e o estudo fornece embasamento técnico para priorizar a conservação de remanescentes primários. O cenário climático intensifica a urgência: “As temperaturas globais devem bater recordes até 2030”, afirmou a ONU em relatório divulgado em maio de 2026, tornando florestas primárias — intactas ou degradadas — ativos climáticos de valor insubstituível.
Trópicos perderam área equivalente ao Panamá em floresta primária
Dados do laboratório Global Land Analysis & Discovery (GLAD), divulgados em outubro de 2025, apontaram perda recorde de florestas primárias nos países tropicais em um único ano — uma área equivalente ao território inteiro do Panamá. A Amazônia, que já perdeu cerca de 20% de sua cobertura florestal original, concentra parcela significativa dessa supressão acumulada ao longo de décadas.
Na Amazônia Legal, os estados do Pará, Amazonas e Mato Grosso reúnem simultaneamente os maiores remanescentes de floresta primária do país e as maiores taxas de desmatamento registradas. A sobreposição coloca essas três unidades federativas no centro do desafio de conservação: as florestas de maior valor para a biodiversidade são também as mais expostas à pressão fundiária e ao avanço do agronegócio nas franjas da floresta.
Limites mínimos de degradação seguem sem definição científica
O artigo publicado na Science Advances deixa em aberto uma questão operacional central para a gestão florestal: a partir de que nível de perturbação uma floresta primária deixa de apresentar vantagem de biodiversidade sobre uma floresta secundária? A resposta ainda não está disponível na literatura científica e deve orientar futuras pesquisas, além de embasar critérios técnicos em processos de licenciamento ambiental e na formulação das próximas metas nacionais de conservação.
No plano internacional, ainda não foi definido como os resultados serão incorporados a relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) ou à Convenção sobre Diversidade Biológica (CDB). No plano doméstico, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima não havia se manifestado publicamente, até a publicação desta matéria, sobre o impacto dos achados nas metas brasileiras de conservação para a próxima rodada de negociações climáticas. A íntegra do estudo está disponível no acervo do PIRANOT.











