O interesse dos brasileiros pela Copa do Mundo de 2026 supera a disposição para ir às urnas nas eleições presidenciais do mesmo ano. É o que aponta pesquisa do instituto Meio/Ideia, divulgada nesta quinta-feira (28), que ouviu 1.500 pessoas com mais de 16 anos entre os dias 23 e 27 de maio. O levantamento revela que 56,6% dos entrevistados se declaram animados com o torneio de futebol, enquanto 41,5% afirmam ter interesse em votar no pleito que definirá o próximo presidente do país. A diferença de 15,1 pontos percentuais a favor do evento esportivo reacende o debate sobre o distanciamento da população em relação à política e o papel do futebol como elemento de união nacional.
A pesquisa, realizada por telefone, indica que o entusiasmo pelo mundial da Fifa no México, Estados Unidos e Canadá supera inclusive a disputa eleitoral que se projeta acirrada. No entanto, os resultados não são unânimes: no mesmo dia, o Ipsos-Ipec divulgou outro levantamento que mede o interesse pelo torneio de forma mais detalhada, mostrando que apenas 16% dos brasileiros estão “muito animados” com a Copa, enquanto 46% se dizem desanimados. A discrepância entre os dois institutos pode ser explicada pela diferença nas perguntas — enquanto o Meio/Ideia questionou sobre “animação” de forma geral, o Ipsos-Ipec estratificou o entusiasmo em níveis, captando um retrato mais matizado do humor nacional.
A reportagem buscou contato com os responsáveis pela pesquisa Meio/Ideia para obter declarações e detalhamentos metodológicos, mas não houve retorno até a publicação. Dessa forma, não foram disponibilizadas citações diretas dos pesquisadores, e o conteúdo aqui apresentado baseia-se exclusivamente nos números oficiais. A margem de erro e o nível de confiança do estudo não foram informados na divulgação preliminar.
O contexto eleitoral que contrasta com o clima de Copa é de polarização e indefinição. No mesmo levantamento Meio/Ideia, os números da corrida presidencial simulada para o segundo turno mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) liderando com 46,5% das intenções de voto, ante 41,4% do pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL). A rejeição, porém, é maior para Lula: 46,7% dos entrevistados afirmam que não votariam no petista “de modo algum”, enquanto 39,8% rejeitam o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. A pesquisa ainda indica que 62% dos eleitores já decidiram seu voto, e 38% podem mudar de posição até outubro. Uma rodada anterior do mesmo instituto, em abril, havia apontado empate técnico entre os dois nomes, sugerindo uma leve oscilação favorável ao atual mandatário.
Historicamente, o calendário de eleições em anos de Copa do Mundo costuma interferir na dinâmica das campanhas. Em 2014, por exemplo, a realização do torneio no Brasil e a eliminação traumática para a Alemanha marcaram o ambiente das urnas que reelegiam Dilma Rousseff. Agora, o fato de a Copa ser no exterior pode atenuar o impacto direto, mas os números do Meio/Ideia sugerem que o futebol permanece como forte catalisador emocional, capaz de ofuscar o debate político. Já o dado do Ipsos, mostrando desânimo com o torneio, sinaliza que a relação do brasileiro com a seleção pode não ser mais tão romântica, em meio a um cenário de insatisfação econômica e descrédito institucional.
Para analistas ouvidos reservadamente, o contraste entre os números reforça a fragmentação do país e a dificuldade de engajamento cívico contínuo. “A Copa mobiliza paixão, mas é um evento pontual. A política exige atenção permanente, e muitos eleitores se sentem exauridos”, avalia um cientista político que preferiu não se identificar. A ausência de uma disputa polarizada dentro do campo do futebol, diferentemente da política, também pode explicar a maior adesão popular ao mundial.
O acervo histórico do PIRANOT registra que, em anos de eleições combinadas com Copas do Mundo, a participação eleitoral tende a ser impactada por fatores emocionais externos, como mostrou a cobertura de 2014 e 2018. As próximas sondagens devem confirmar se a distância entre a expectativa pelo futebol e o interesse pelo voto se manterá à medida que a campanha eleitoral entrar na fase de propaganda obrigatória, em agosto.
A pesquisa Meio/Ideia tem caráter amostral e reflete o momento da coleta. A oscilação de humor pode variar com a proximidade da Copa, que começa em 11 de junho, e com a intensificação dos debates presidenciais.











