Dados do governo da Suécia indicam que a economia russa encolheu 8% entre 2020 e 2024, contrariando os números oficiais de Moscou que apontam crescimento de 13% no mesmo período. A divergência foi apresentada em artigo de opinião assinado pela ministra das Relações Exteriores sueca, Maria Malmer Stenergard, publicado no jornal The New York Times nesta terça-feira (27).
“A economia é mais frágil do que aparenta”, afirmou Stenergard, em trecho do artigo no qual alerta o Ocidente contra a superestimação da Rússia. Segundo a ministra, as estatísticas oficiais do Kremlin funcionam como uma fachada para esconder a deterioração econômica provocada pelas sanções ocidentais e pelo isolamento financeiro decorrente da invasão da Ucrânia em 2022.
A metodologia sueca utiliza imagens de luminosidade noturna captadas por satélites para estimar a atividade econômica real. A técnica, aplicada por economistas em países com dados oficiais pouco confiáveis, parte da premissa de que regiões mais prósperas consomem mais energia à noite — em fábricas, residências e comércios. Enquanto a Rússia afirma que o PIB cresceu cerca de 13% entre 2020 e 2024, a análise baseada em luminosidade sugere uma contração de 8% no período.
Inflação oficial diverge de preços no varejo
Além do PIB, a análise sueca aponta que a inflação russa estaria sendo subestimada pelas autoridades de Moscou. O índice oficial de inflação em 2024 foi significativamente menor do que os preços praticados no varejo sugerem. Em Moscou, o preço do café subiu 26%, enquanto a alimentação mensal passou de 35.000 rublos para 43.000 rublos — alta de 22% apenas no item alimentação, segundo dados compilados pela imprensa internacional.
“Não consigo mais comprar carne”, relatou uma moradora de Moscou em depoimento reproduzido por reportagens sobre a escalada de preços na Rússia. O aumento no custo de vida reflete a pressão sobre as famílias russas, que enfrentam a combinação de sanções, desvalorização do rublo e desorganização das cadeias de abastecimento.
Metodologia alternativa tem limitações
A técnica de mensuração por luminosidade noturna não é nova. Economistas a utilizam há décadas para estimar atividade econômica em países com estatísticas oficiais questionáveis. A premissa fundamental é que regiões mais prósperas apresentam maior intensidade luminosa noturna, indicando atividade industrial, comercial e residencial.
O governo sueco não detalhou a metodologia completa em sua análise pública. Especialistas ouvidos pela imprensa especializada apontam que a técnica tem limitações relevantes: não capta a economia informal, os setores de alta tecnologia com baixo consumo energético, nem as exportações de commodities que continuam a gerar receita para o Estado russo.
Parceria brasileira com a Rússia mantém caráter estratégico
Apesar das incertezas sobre a realidade econômica russa, o Brasil mantém laços comerciais estreitos com Moscou. Em fevereiro deste ano, o Fórum Empresarial Brasil-Rússia reafirmou o caráter estratégico da parceria bilateral, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC).
A Rússia é fornecedor relevante de fertilizantes para o agronegócio brasileiro e parceira na área de energia. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) analisou em nota técnica os efeitos da guerra na economia mundial e brasileira, destacando a importância dos insumos russos para o setor agrícola nacional. O documento aponta que a interrupção no fornecimento de fertilizantes russos poderia ter impacto significativo sobre a produção de grãos no Brasil.
Implicações para mercados emergentes e commodities
Analistas de mercado acompanham a divergência de dados com cautela. Uma economia russa mais frágil do que o anunciado poderia afetar preços de commodities, especialmente petróleo e gás natural. Por outro lado, superestimar a força econômica russa pode levar a avaliações equivocadas sobre a sustentabilidade do conflito na Ucrânia e a capacidade de Moscou de manter operações militares prolongadas.
A análise sueca sugere que sanções e isolamento econômico podem estar surtindo efeito maior do que Moscou admite publicamente. Para o Brasil, a questão é pragmática: independentemente dos números reais da economia russa, os insumos agrícolas seguem fluindo. O desafio para o governo brasileiro é monitorar riscos de desabastecimento caso a situação econômica russa se deteriore além do projetado.
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