O dólar à vista rompeu a barreira psicológica de R$ 5 nesta quarta-feira (13) e fechou com a maior alta em meses, impulsionado por um novo episódio de turbulência política que elevou a percepção de risco do investidor estrangeiro. A moeda americana encerrou o pregão cotada a R$ 5,0085, com valorização de 2,31%, um patamar inédito desde 10 de abril deste ano. O real apresentou o pior desempenho entre as 33 moedas mais líquidas negociadas no mundo no mesmo dia, isolando o Brasil como o mercado mais afetado pelas notícias do dia.
Contexto
A aceleração cambial foi deflagrada logo após a divulgação de uma reportagem do veículo Intercept Brasil. A publicação traçou uma ligação direta entre o pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Segundo o levantamento, teria havido uma suposta negociação de R$ 134 milhões destinada a financiar a produção de um filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
A suspeita de articulação financeira envolvendo figuras políticas de proeminência e o sistema bancário reascendeu o temor sobre a integridade institucional e a governança no país. No mercado de câmbio, a percepção de risco-país disparou imediatamente. A tensão eleitoral, já latente em função das prévias e das articulações de palanque, encontrou nas denúncias um catalisador para a venda acelerada de reais e a busca por refúgio no dólar. A quebra da resistência dos R$ 5 reflete não apenas o episódio isolado, mas a vulnerabilidade do Brasil a ruídos políticos em um período de crescente polarização.
A ligação com o setor financeiro é particularmente sensível. O Banco Master ganhou notoriedade nos últimos anos e qualquer associação com movimentações financeiras de vulto para fins políticos coloca em xeque a credibilidade do sistema. A reação imediata do mercado cambial demonstra que os investidores enxergam no episódio um risco de contágio institucional que vai além da disputa eleitoral.
Impacto
O efeito cascata da notícia não se restringiu ao mercado de moedas. O Ibovespa, principal índice da B3, registrou queda acentuada de 1,80%, sofrendo com a aversão ao risco e a venda de ações por investidores estrangeiros. Enquanto o dólar se valorizava, a renda variável brasileira era penalizada, evidenciando um movimento clássico de fuga para ativos considerados seguros.
A posição do real como a moeda mais desvalorizada entre as 33 mais líquidas do planeta sinaliza o tamanho do estrago provocado pela nova incerteza. Para economistas, a ultrapassagem dos R$ 5 altera de forma estrutural as projeções inflacionárias. A alta do dólar encarece insumos importados e pressiona a trajetória dos preços administrados, o que pode forçar o Banco Central a adotar uma postura mais rígida por mais tempo.
A manutenção da taxa Selic em patamares elevados para conter o repasse cambial encarece o crédito, freia o investimento produtivo e compromete a retomada econômica. O mercado agora aguarda com atenção os próximos passos das investigações sobre as movimentações envolvendo o Banco Master e o entorno político de Flávio Bolsonaro. A permanência da instabilidade política pode consolidar a faixa dos R$ 5 como novo piso cambial, dificultando a queda dos juros e prejudicando as contas públicas.
Esse cenário adverso exige atenção redobrada do Copom (Comitê de Política Monetária), que passa a enfrentar um dilema adicional. De um lado, o enfraquecimento da atividade econômica puxa a inflação para baixo. De outro, o choque cambial impulsionado pela política demanda aperto monetário. A combinação de juros altos e câmbio depreciado é o pior cenário possível para o crescimento do país nos próximos trimestres. A recuperação das bolsas dependerá, portanto, não apenas da trajetória global, mas da capacidade das lideranças de isolarem os danos políticos do campo econômico.
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