Um grupo bipartidário de senadores americanos enviou uma carta ao presidente Donald Trump pedindo que ele “mantenha uma posição firme” nas restrições à construção naval chinesa, às vésperas do encontro com o líder chinês, Xi Jinping, previsto para 14 e 15 de maio. O documento, tornado público nesta segunda-feira, 11, pressiona pelo fim da suspensão temporária das tarifas portuárias que incidem sobre embarcações da China, uma trégua acertada entre Trump e Xi em outubro de 2025 que expira em novembro.
As taxas, se reativadas, podem alcançar US$ 3,2 bilhões ao ano, segundo estimativas do setor naval citadas na carta. A suspensão, adotada para dar fôlego às negociações comerciais bilaterais, é vista pelos senadores como um gesto de fraqueza diante do avanço chinês na indústria marítima. “O domínio da China na construção naval não é apenas uma questão econômica, mas de segurança nacional”, afirmam os parlamentares no texto, ecoando argumentos de que o controle de rotas e estaleiros por Pequim fragiliza as cadeias de suprimento ocidentais.
A escalada chinesa e o encolhimento americano
Dados da consultoria Clarksons Research, referência no mercado marítimo, mostram que a participação da China na construção naval global saltou de menos de 5% em 2000 para mais de 50% em 2023. No mesmo período, a fatia dos Estados Unidos despencou para menos de 1%. O país asiático lidera com folga na carteira de novos pedidos, com estaleiros operando a plena capacidade, enquanto os americanos lutam para manter instalações mínimas.
Em reação, o Congresso americano reintroduziu, em abril de 2025, o SHIPS for America Act, uma lei que injeta US$ 2,5 bilhões ao longo de uma década para modernizar estaleiros, com créditos tributários e subsídios para a construção de navios comerciais e militares. A iniciativa é vista como um passo, mas analistas do setor consideram que o valor é modesto para competir com o ritmo de investimento chinês, que ultrapassa US$ 30 bilhões anuais, conforme estimativas do governo americano.
Efeitos para o comércio e o agronegócio brasileiro
As tarifas portuárias em discussão afetam diretamente o custo do frete marítimo, já que armadores chineses controlam boa parte dos navios que transportam commodities do Brasil para a Ásia. Se renovadas, as taxas podem elevar o valor dos fretes em até 8%, de acordo com simulações da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp). O agronegócio brasileiro, que embarca grãos em navios operados por linhas asiáticas, seria um dos setores mais impactados, com redução de margens em um momento de preços internacionais pressionados.
Enquanto a tensão externa se acirra, o governo Luiz Inácio Lula da Silva anunciou, também em maio de 2026, a aprovação de R$ 22 bilhões para projetos no setor naval brasileiro, incluindo a construção de sondas e plataformas. A medida é uma tentativa de reaquecer uma indústria que encolheu 40% na última década, segundo dados do Sindicato Nacional da Construção Naval (Sinaval). O investimento, porém, não tem relação direta com a disputa sino-americana e foca no mercado interno de óleo e gás.
A decisão de Trump diante do pedido dos senadores deve ditar o rumo das taxas portuárias. A posição do mandatário oscilou entre o confronto tarifário de 2025 e a reaproximação com Xi, e sua escolha terá reflexos nas cadeias globais de suprimento, da Ásia ao Porto de Santos.
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