Um estudante de nutrição de 18 anos corre o risco de perder a visão do olho direito após ser atingido no rosto por uma bala de borracha disparada por um policial militar na saída do clássico entre Flamengo e Vasco, no Maracanã, na noite de domingo (3). Arthur Cortines Laxe deixava o estádio quando foi surpreendido pelo confronto entre as torcidas organizadas Jovem Fla e Força Jovem do Vasco, que se enfrentaram na Rua Oito de Dezembro, próximo ao metrô.
Confronto entre torcidas e intervenção policial
O tumulto começou por volta das 20h30, logo após o apito final da partida válida pelo Campeonato Brasileiro. Testemunhas relataram que grupos rivais se provocaram e iniciaram uma briga generalizada, com arremesso de pedras e pedaços de madeira. A Polícia Militar interveio com bombas de efeito moral e gás lacrimogêneo para dispersar os envolvidos, mas um dos disparos de bala de borracha atingiu Arthur, que não participava do conflito.
“Ele só queria ir para casa. Estava no lugar errado, na hora errada. A polícia agiu com despreparo total”, afirmou a mãe do jovem, que acompanha o filho no Hospital Municipal Souza Aguiar, no centro do Rio. A unidade informou que o estado de Arthur é grave, mas estável, e que ele passará por cirurgia para tentar salvar a visão. “Os médicos disseram que a bala fraturou o osso orbital e lesionou o nervo óptico. As chances de recuperação são incertas”, acrescentou a mãe.
Além de Arthur, outras duas vítimas foram encaminhadas ao Souza Aguiar. Uma delas foi identificada como Hiata André Barbosa, que sofreu ferimentos leves e já recebeu alta. A terceira pessoa, sem identidade confirmada, segue em observação. A PM informou que dez suspeitos de participação no tumulto foram detidos e conduzidos à delegacia. Com eles, foram apreendidas barras de ferro, pedaços de madeira, fogos de artifício e toucas ninja.
Debate sobre violência no futebol e uso de armas menos letais
O caso reacende o debate sobre a violência no futebol e o uso de armamento menos letal pela polícia em áreas de grande aglomeração. Especialistas em segurança pública alertam que balas de borracha, embora projetadas para causar lesões não letais, podem provocar danos permanentes se atingirem regiões sensíveis como olhos e crânio. “O protocolo determina que esses projéteis sejam direcionados apenas para membros inferiores e em situações de legítima defesa ou risco iminente. Disparos contra o tronco ou cabeça configuram uso desproporcional da força”, explica um pesquisador do Instituto de Segurança Pública.
A Polícia Militar afirmou, em nota, que “apura as circunstâncias do disparo” e que o tiro teria partido de um integrante do Regimento de Polícia Montada, que dava apoio à operação. A corporação não informou se o agente será afastado durante as investigações. O clássico entre Flamengo e Vasco já havia sido palco de outros confrontos nos últimos anos, e a recorrência de episódios violentos preocupa autoridades e torcedores.
Enquanto Arthur luta para não perder a visão, sua família cobra responsabilização. “Queremos justiça. Meu filho não pode ficar cego por causa de uma guerra de torcida que não era dele”, desabafou a mãe. O caso deve ser acompanhado pela Defensoria Pública e por entidades de direitos humanos, que pressionam por câmeras nos uniformes dos policiais e revisão dos protocolos de atuação em eventos esportivos.











