Os cortes compulsórios de geração de energia eólica e solar, determinados pelo Operador Nacional do Sistema (ONS) para evitar sobrecarga na rede, já custaram R$ 6,5 bilhões ao setor elétrico em 2025, segundo estimativa da consultoria Lux Energia. O prejuízo, porém, não atinge todos os geradores da mesma forma: a localização da usina e a gestão do ativo determinam o tamanho da perda.
O valor, que não foi submetido a auditoria pública, foi divulgado em artigo patrocinado no Valor Econômico nesta quarta-feira (15). A lei que prevê compensação financeira aos geradores afetados por esses cortes, aprovada em novembro de 2025, segue sem regulamentação oito meses depois, o que mantém o setor em compasso de espera. Assim como o corte no querosene de aviação anunciado pela Petrobras em julho não reduziu automaticamente o preço das passagens, o prejuízo bilionário do curtailment não se distribui de forma uniforme entre os geradores.
A paralisia regulatória já provoca efeitos concretos: a imprensa especializada reportou nesta semana que novos investimentos privados em energia solar foram suspensos no país, interrompendo a expansão de uma fonte considerada estratégica para a transição energética brasileira.
Por que o prejuízo não é igual para todos
De acordo com a Lux Energia, a exposição financeira de cada usina aos cortes depende da região onde está conectada à rede de transmissão. Projetos no Nordeste e no norte de Minas Gerais, que concentram a maior parte da geração solar e eólica, são os mais atingidos porque a capacidade de escoamento nessas áreas é limitada. Além disso, a forma como o gerador gerencia a operação e documenta as perdas influencia diretamente o valor a ser eventualmente compensado.
O chamado curtailment ocorre quando o ONS ordena a redução da injeção de energia na rede para evitar instabilidade. Com o boom de instalações renováveis nos últimos anos, a oferta em determinados horários supera a capacidade das linhas de transmissão, forçando os cortes. A lei aprovada em 2025 determinou que os geradores prejudicados sejam ressarcidos, mas a ausência de regras claras impede o pagamento.
Impacto sobre investimentos e transição energética
A suspensão de novos projetos solares, noticiada pela imprensa, acende um alerta para as metas brasileiras de redução de emissões. O país assumiu compromissos internacionais de ampliar a participação de fontes renováveis na matriz elétrica, mas a insegurança regulatória pode afastar capital estrangeiro e encarecer a energia no médio prazo. O prejuízo de R$ 6,5 bilhões equivale a cerca de 29,5 milhões de contas de luz residenciais médias, considerando o valor de R$ 220 por mês, o que ilustra a magnitude do rombo.
Especialistas do setor alertam que, sem regras de compensação, os investidores passam a precificar o risco regulatório, elevando o custo de capital para novos empreendimentos. Isso pode atrasar a expansão da capacidade instalada de fontes limpas e comprometer a segurança energética do país nos próximos anos.
Próximos passos e lacunas
O Ministério de Minas e Energia (MME) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) não informaram prazo para a publicação da regulamentação da lei de compensação. Procurados, não se manifestaram até a publicação desta reportagem. A indefinição mantém os geradores sem previsão de ressarcimento e dificulta a retomada dos investimentos.
Enquanto isso, o setor cobra agilidade e critérios claros para a compensação, que, segundo a lei, deve considerar as perdas efetivas de cada usina. A expectativa é que a regulamentação detalhe a metodologia de cálculo e os procedimentos para solicitação do ressarcimento, mas não há data prevista para a conclusão desse processo.











