A Abraciclo, entidade que representa 97% da indústria de motocicletas no Brasil, protocolou na última sexta-feira (10) uma nova denúncia contra a fabricante chinesa Shineray na Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon). Os laudos, produzidos pelo laboratório independente Marelli, indicam que modelos da marca emitem até 30 vezes mais poluentes do que o permitido pela legislação brasileira. A informação foi confirmada pelo presidente da Abraciclo, Marcos Bento, em entrevista coletiva nesta segunda-feira (13).
O novo protocolo é uma resposta direta às contestações da Shineray, que questionou a imparcialidade dos testes anteriores por terem sido realizados em laboratório de uma associada da entidade. A denúncia original, apresentada em novembro de 2025, já acusava a empresa de descumprir normas ambientais e de segurança. Agora, a Abraciclo busca reforçar o caso com laudos de uma empresa externa, na tentativa de afastar a alegação de conflito de interesses.
A entidade não divulgou quais modelos da Shineray foram submetidos aos ensaios, nem os valores exatos de emissão de cada um. A Shineray, procurada pela imprensa, ainda não se manifestou sobre os novos laudos entregues à Senacon. A ausência de posicionamento mantém em aberto a principal linha de defesa da fabricante: a de que a metodologia dos testes pode estar distorcida.
A metodologia em disputa
A briga entre a associação nacional de fabricantes e a marca chinesa se arrasta desde o ano passado. Em novembro de 2025, a Abraciclo acionou a Senacon alegando que a Shineray comercializava motocicletas fora dos padrões de emissão e segurança. A Shineray rebateu, afirmando que os testes haviam sido feitos em laboratório de uma concorrente associada à Abraciclo, o que comprometeria a isenção dos resultados.
Para o novo protocolo, a entidade contratou a Marelli, empresa de engenharia que não pertence ao quadro de associadas. Os laudos, segundo a Abraciclo, confirmam que as emissões de alguns modelos superam em até 30 vezes o teto fixado pelo Programa de Controle da Poluição do Ar por Motociclos e Veículos Similares (Promot). A entidade sustenta que a discrepância é grave o suficiente para justificar uma intervenção do poder público.
A disputa ocorre em um momento de forte expansão das marcas chinesas no mercado brasileiro de veículos, como o PIRANOT mostrou em junho ao reportar que a BYD alcançou a quarta posição em vendas no país. A pressão regulatória sobre importadoras asiáticas tem se intensificado, e o caso Shineray pode estabelecer precedentes para a fiscalização de emissões em toda a categoria de duas rodas.
O que a Senacon pode decidir
Com o novo protocolo, a Senacon deverá analisar os laudos e ouvir a defesa da Shineray antes de qualquer decisão. O processo administrativo pode resultar em multas, determinação de recall dos modelos reprovados ou até restrições à importação e comercialização dos veículos. Até o momento, não há medida cautelar em vigor.
A Abraciclo afirma que o objetivo é garantir condições iguais de concorrência e proteger o consumidor. “Não se trata de uma disputa comercial, mas de assegurar que todas as empresas sigam as mesmas regras”, disse Marcos Bento. A Senacon não informou prazo para conclusão da análise.











