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A encomenda de mais de 200 pesquisas da Quaest pela Globo e suas afiliadas pode entregar ao grupo algo maior do que uma sequência de manchetes para a cobertura das eleições de 2026: uma régua própria para medir o país no momento em que decisões políticas, consumo, crédito e confiança passam a andar juntos. A leitura é estratégica. Até agora, não há confirmação pública de que levantamentos reservados serão entregues ao conselho de administração ou à Globo Ventures.
O fato concreto é que a Globo deixou de ser apenas uma empresa de televisão há muito tempo. A holding reúne veículos, plataformas digitais, publicidade, mídia exterior e um braço de investimentos com 35 ativos. Em junho, o PIRANOT mostrou que a nova estrutura tem 20 integrantes e separa o comando das empresas de mídia da vice-presidência de Negócios e Investimentos.
Em resumo:
- Globo e afiliadas encomendaram mais de 200 pesquisas eleitorais à Quaest para 2026.
- A holding do grupo opera com 20 integrantes e separa mídia de negócios e investimentos.
- A Globo Ventures mantém um portfólio de 35 ativos, inclusive no setor financeiro.
- A participação no Nubank foi construída por meio de media for equity, segundo reportagens de mercado.
- Não há confirmação pública de pesquisas reservadas ao conselho de administração.
O ponto central: pesquisa também é infraestrutura de decisão
Uma pesquisa eleitoral mede intenção de voto, avaliação de governo e percepção sobre os principais problemas do país. Mas o mesmo campo pode cruzar renda, região, idade, confiança, prioridades econômicas e comportamento. Para um grupo que alcança dezenas de milhões de brasileiros diariamente, esse conhecimento pode orientar cobertura jornalística, programação, estratégia comercial, posicionamento de marcas e leitura de risco.
O valor não está apenas no número que será exibido no Jornal Nacional ou publicado no g1. Está na série histórica, na capacidade de comparar públicos e na velocidade para detectar mudanças. Se o contrato permitir módulos proprietários, estudos qualitativos ou relatórios não destinados à publicação, a Globo poderá construir indicadores internos para decisões que atravessam suas diferentes empresas. Essa hipótese é compatível com a estrutura do grupo, mas o escopo integral do contrato com a Quaest não foi divulgado.
Participação no Nubank mostra que mídia e investimento já se cruzam
O Nubank ajuda a mostrar por que essa discussão vai além do jornalismo. A Globo Ventures adquiriu uma participação minoritária no banco digital por meio do modelo conhecido como media for equity, no qual espaço publicitário é trocado por participação acionária. Reportagens de mercado apontaram que a fatia foi construída a partir de 2023 e envolve exposição da marca em espaços de grande valor, inclusive no Jornal Nacional. A Globo Ventures não tornou públicos os detalhes do contrato e informou que também existem negócios tradicionais de publicidade com o banco.
A própria Globo apresenta a parceria com o Nubank como uma operação guiada por dados, mensuração e inteligência. Em material comercial, o grupo afirma que a relação passou a contar com análises de cenário, comportamento e oportunidades produzidas por seu time de Insights de Mercado. Isso não prova que pesquisas eleitorais da Quaest serão usadas pelo Nubank ou por empresas investidas. Mostra, porém, que o grupo já combina mídia, dados e performance na relação com negócios dos quais pode se tornar acionista.
O que está em jogo para a Globo em 2026
A eleição de 2026 terá impacto direto sobre juros, crédito, consumo, publicidade, regulação das plataformas, concessões de radiodifusão e ambiente de investimentos. Uma régua própria e frequente permite acompanhar não apenas quem vence a disputa, mas como diferentes grupos da população reagem a inflação, emprego, segurança, bancos, apostas, inteligência artificial e novas formas de consumo.
Para a redação, pesquisas confiáveis dão base a notícias e entrevistas. Para o conselho e o braço de investimentos, caso tenham acesso a estudos desenhados para esse fim, os mesmos instrumentos podem reduzir incerteza e antecipar movimentos. A fronteira precisa ser transparente: dado editorial não deve se confundir com interesse comercial, e uma pesquisa publicada precisa seguir critérios jornalísticos independentemente dos investimentos do grupo.
A leitura do PIRANOT
A contratação da Quaest deve ser lida como uma decisão de credibilidade jornalística, mas não somente. Mais de 200 pesquisas formam uma infraestrutura de conhecimento sobre o Brasil. Em um conglomerado que controla veículos de comunicação e investe em dezenas de empresas, essa inteligência tem valor para muito além da eleição.
A pergunta decisiva não é apenas quais pesquisas irão ao ar. É quais réguas poderão ser construídas para uso interno, quem terá acesso a elas e quais barreiras de governança separarão jornalismo, publicidade e investimento. Sem o contrato público, afirmar que o conselho receberá levantamentos exclusivos seria ir além dos fatos. Ignorar o valor empresarial desse banco de informações, porém, seria olhar apenas para a metade visível da operação.
Esta é uma análise de Júnior Cardoso baseada em informações públicas do Grupo Globo, da Globo Ads, da Quaest e em reportagens de mercado sobre a Globo Ventures.














