Daniel Vorcaro, ex-banqueiro do Master, e Paulo Henrique Costa, ex-presidente do Banco de Brasília (BRB), têm direito a um curso de orientação financeira para a vida pós-prisão na Papudinha, o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal.
A informação foi confirmada pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) neste domingo (12). O curso integra um programa de reinserção social oferecido aos detentos da unidade, que historicamente abriga presos de alta repercussão política e econômica.
Os dois investigados estão incomunicáveis entre si e com os demais presos por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). A medida, adotada em 1º de julho, levou a PMDF a instalar barreiras metálicas para garantir o isolamento absoluto, conforme decisão judicial no âmbito da Operação Compliance Zero.
Como a Papudinha se tornou centro de detenção de escândalos
O 19º Batalhão da PMDF ganhou o apelido de “Tremembé de Brasília” por concentrar réus de alguns dos maiores escândalos recentes do país. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) cumpriu parte da pena no local após a condenação pela tentativa de golpe. O ex-ministro Anderson Torres também passou pela unidade.
Com a chegada de Vorcaro, em 25 de junho, a Papudinha passou a abrigar simultaneamente investigados da tentativa de golpe, de fraudes no INSS e do esquema financeiro que envolve o Banco Master e o BRB. Vorcaro ocupa a mesma cela de cerca de 60 m² que já abrigou Bolsonaro, equipada com cama de casal, banheiro e área externa. Ele completou 15 dias preso na última sexta-feira (10) sem acesso a televisão ou academia, de acordo com relatos da imprensa.
A concentração de presos de alta visibilidade levanta questões sobre os critérios de alocação. A PMDF não detalhou as regras que definem a permanência no batalhão, mas a unidade é originalmente destinada ao patrulhamento de presídios e, por sua estrutura, permite o isolamento de detentos que demandam segurança reforçada.
As fraudes da Compliance Zero e a incomunicabilidade
A Operação Compliance Zero apura desvios de R$ 550 milhões no Banco Master e de R$ 1,1 milhão no BRB, segundo a Polícia Federal. Vorcaro foi preso após a PF levar ao Supremo indícios de ligações entre seu pai e um bicheiro, como revelou o PIRANOT em junho. A décima fase da operação, deflagrada em 9 de julho, mirou um publicitário ligado a Vorcaro.
A incomunicabilidade entre Vorcaro e Costa foi imposta pelo STF para evitar a combinação de versões. A defesa dos investigados nega irregularidades e afirma que as prisões são desproporcionais. Ambos são considerados inocentes até decisão definitiva, e o processo ainda está em fase de instrução.
O curso de orientação financeira oferecido aos dois contrasta com a complexidade das operações que eles gerenciavam. Vorcaro comandava um banco com ativos bilionários, enquanto Costa presidia uma instituição financeira pública. O conteúdo programático do curso não foi divulgado, mas a iniciativa faz parte da assistência de reinserção prevista na Lei de Execução Penal.
Adesão ao curso e próximas etapas da apuração
Até o momento, nem a PMDF nem as defesas informaram se Vorcaro e Costa aceitaram participar do curso. A aceitação é voluntária, e a recusa não gera sanções disciplinares. A lacuna sobre a adesão mantém em aberto a ironia apontada por fontes próximas à investigação: dois especialistas em finanças recebendo orientação básica sobre o tema.
A investigação da Compliance Zero segue em andamento, com novas fases previstas. A Polícia Federal analisa documentos apreendidos e pode ouvir novos depoimentos nas próximas semanas. A defesa de Vorcaro tenta reverter a prisão preventiva, enquanto o STF avalia a possibilidade de delação premiada — hipótese que, segundo a Procuradoria-Geral da República, não está descartada. A expectativa é que o tribunal decida sobre a manutenção da prisão nas próximas semanas.











