segunda-feira, junho 29
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Júnior Cardoso
Júnior Cardoso

Júnior Cardoso

Diretor, editor chefe e jornalista do PIRANOT. Começou a trabalhar em 2007, aos 14 anos, quando lançou seu primeiro blog...

A mesma tela que paga o pão de uns devora a comida de outros

· 6 min de leitura

Pontos-chave

  • O mesmo celular em que 1,743 milhão de brasileiros trabalham por aplicativo (dado de Barjas Negri) é onde 25 milhões de CPFs apostam no Tigrinho (alerta da Professora Bebel).
  • Entre quem ganha até dois salários mínimos, 40% usa as bets como suposta renda extra; é o dinheiro da comida e do aluguel que some na tela.
  • Vinicius Marchese resume o avesso da aposta: a prosperidade se constrói obra após obra, projeto após projeto, nunca num clique.
  • Piracicaba, cidade da Esalq e do parque industrial, é a prova de que o que dura é o que se constrói, jamais o que se aposta.

Toda quinzena eu abro este espaço procurando o mesmo fio: o assunto que vários colunistas tocaram sem combinar nada entre si. Desta vez, não precisei procurar longe. O fio estava na palma da mão de todo mundo — dentro do mesmo aparelho que você provavelmente está usando para ler esta coluna.

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Porque o celular virou a régua da nossa época. No mesmo retângulo de vidro, milhões de brasileiros encontraram a forma mais democrática de ganhar a vida que esta geração conheceu — e outros tantos milhões encontraram a maneira mais rápida de perdê-la. Dois colunistas desta quinzena, vindos de mundos completamente diferentes, mostraram as duas faces dessa tela sem perceber que estavam falando do mesmo objeto.

A tela que dá o pão

A primeira face quem mostrou foi Barjas Negri. Em sua coluna sobre os trabalhadores de aplicativo, o ex-prefeito trouxe um número que diz muito sobre o país real: “1,743 milhão de trabalhadores por meio de plataformas digitais e aplicativos” — 964 mil no transporte de gente, 485 mil em entregas. São pessoas que, como ele descreve, “encontraram uma nova forma de ocupação e geração de renda”: o desempregado que virou motorista, o aposentado que complementa a renda dirigindo algumas horas, o jovem que faz entrega entre uma aula e outra.

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É o trabalho na sua forma mais crua e mais honesta: você liga o aplicativo, e a tela vira ganha-pão. Mas Barjas não romantiza. Ele aponta a fratura: quem vive só disso vai “um dia fazer 65 anos e, infelizmente, não terá tempo suficiente para aposentadoria”. A mesma tela que oferece renda hoje não oferece proteção amanhã. É pão sem rede. Guarde essa ideia, porque ela volta.

A tela que devora a comida

A outra face quem revelou foi a Professora Bebel, em “Dê Block no Tigrinho”. Os números dela são de arrepiar e moram no mesmo aparelho: “cerca de 25 milhões de CPFs ativos” apostando no Brasil, um mercado que deve girar 310 bilhões de reais em 2026. Mas o dado que não me larga é outro: 35% dos apostadores entram nas bets atrás de “renda extra” — e, entre quem ganha até dois salários mínimos, esse índice sobe para 40%.

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Leia isso ao lado do número do Barjas e veja o tamanho da ironia. No mesmo celular em que 1,7 milhão de pessoas trabalham de verdade para ganhar a vida, dezenas de milhões giram a roleta tentando ganhá-la sem trabalhar. Bebel cita uma frase que resume tudo: “é o dinheiro da comida, do aluguel, da escola das crianças que desaparece na tela do celular”. A mesma palma da mão que paga o pão de uns devora a comida de outros. Não é o aparelho que muda. É o que se faz com ele.

O atalho não existe

E aqui entra a terceira voz, que dá nome ao que está em jogo. Vinicius Marchese, presidente licenciado do Confea, escreveu uma coluna sobre a Copa que, no fundo, é sobre exatamente isto: não há atalho. “A prosperidade não será conquistada em um único jogo”, ele escreve. “Ela será construída dia após dia, obra após obra, projeto após projeto.” O verdadeiro campeonato, para ele, é o da produtividade, da infraestrutura, do trabalho que transforma potencial em realização.

É o oposto exato da promessa do Tigrinho. A aposta vende o que Marchese diz não existir: o resultado sem o processo, o prêmio sem a obra, a riqueza num toque de tela. E não é coincidência que Andrey Moral, toda quinzena, faça em silêncio o trabalho mais antiquado e mais necessário do jornalismo local: listar vaga real, com carteira, salário e qualificação. Enquanto a tela do Tigrinho promete o céu, a coluna do Andrey oferece o chão. E é só do chão que se constrói qualquer coisa que dure.

Piracicaba, de todas as cidades, devia entender isso na veia. Somos a cidade da Esalq, do parque industrial, do conhecimento que vira riqueza no tempo lento da ciência e da fábrica. A nossa história inteira é uma prova de que o que fica é o que se constrói — nunca o que se aposta.

O resto da quinzena

Fora do eixo, a quinzena ainda deu pano para manga. Dr. Sérgio Pacheco voltou ao tema da representação em “Com Brasília perto, Piracicaba avança”, defendendo que a cidade precisa de quem a conheça “por dentro” — assunto que tratei na coluna passada e que segue de pé. Alex Madureira celebrou o aniversário da Esalq lembrando que Piracicaba viu gerações inteiras chegarem” enquanto outras cidades viam seus jovens partir. Clovis Vaz escreveu duas vezes: leu o Rosarinho para resgatar a cidade que “não foi construída pela espera, mas pela iniciativa”, e antes já havia alfinetado “os especialistas de internet”.

Barjas ainda fechou o período voltando ao parque automotivo — “10% dos veículos montados no Brasil são produzidos em Piracicaba —, o tamanho do nosso trabalho de verdade. Professora Bebel também opinou sobre política nacional em “Um traidor quer ser presidente”; tivemos a estreia de Paulo Campos, apostando que “Paulinho da Força será reconhecido pela história como o grande pacificador”; Gustavo Alves de Oliveira nos tirou da pressa com um flagrante de uma lebre-europeia na zona rural; e Fernanda Maestro, na sua curadoria de cinema e streaming, lembrou que a vida também é o que se assiste quando a tela, enfim, descansa de cobrar algo da gente.

A mão que segura o aparelho

A quinzena me deixou com uma certeza e uma pergunta. A certeza: o celular não é vilão nem herói — é espelho. O mesmo aparelho que botou 1,7 milhão de brasileiros para trabalhar é o que está sugando o salário de quem aposta a comida do mês numa fichinha digital. A tecnologia é a mesma. O que muda é a decisão de quem segura o aparelho — e a decisão de um país inteiro sobre o que vai estimular e o que vai conter.

A pergunta é mais incômoda: que tipo de gente a gente está formando quando vende, para quem ganha dois salários mínimos, a fantasia de enriquecer sem trabalhar — no mesmo bolso em que o trabalho de verdade nunca pagou tão pouco e protegeu tão menos? Barjas mostrou o pão sem rede. Bebel, a ilusão que come o pão. Marchese avisou que país nenhum jamais ficou rico no atalho. No fim, é tudo a mesma tela, o mesmo bolso, a mesma mão. E é essa mão — não o aparelho — que ainda decide, todo dia, se aquele bolso vai encher devagar ou esvaziar num clique.

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Esta coluna é publicada quinzenalmente, às segundas-feiras, por Júnior Cardoso, diretor-fundador e editor-chefe do PIRANOT.

Júnior Cardoso
Sobre o colunista

Júnior Cardoso

Diretor, editor chefe e jornalista do PIRANOT. Começou a trabalhar em 2007, aos 14 anos, quando lançou seu primeiro blog na internet. Em 2011, criou o PIRANOT e fez parte, por três anos, de um programa da extinta TV Beira Rio. Estudou jornalismo na UNIMEP e assessoria de imprensa no SENAC. Fez estágio na Câmara de Vereadores e teve passagens por duas rádios de Piracicaba.

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