O Relatório Focus divulgado nesta segunda-feira (29) pelo Banco Central manteve a mediana das projeções do dólar para o fim de 2026 em R$ 5,20, mas as estimativas mais recentes — atualizadas nos últimos cinco dias úteis — subiram para R$ 5,23. O dado revela que, mesmo com a expectativa geral do mercado estável, há um movimento de revisão para cima entre os agentes que atualizaram suas contas na última semana.
O Focus consolida as expectativas de um amplo painel de instituições financeiras e consultorias. Para o câmbio, a mediana das 43 estimativas atualizadas nos últimos cinco dias úteis chegou a R$ 5,23, enquanto o conjunto total de projeções permaneceu em R$ 5,20. A metodologia do relatório usa a média de dezembro como referência anual — e não a cotação do último dia útil. Na mesma edição, o IPCA esperado para 2026 ficou em 5,33% e a Selic projetada subiu para 14% ao ano, após o IPCA acumular 15 altas consecutivas de expectativa antes de se estabilizar.
A diferença entre a mediana cheia e a mediana recente indica que os ajustes pontuais ainda não foram suficientes para alterar a média geral, mas criam um viés de alta. Se o ritmo de revisões continuar nas próximas semanas, o número principal pode se deslocar para R$ 5,23 ou mais, com efeitos diretos sobre os custos de importados, combustíveis e insumos industriais.
Estabilidade aparente, pressão real nas estimativas recentes
Historicamente, a mediana cheia do Focus demora a refletir mudanças de expectativa, enquanto o recorte de projeções recentes funciona como um termômetro mais sensível do humor do mercado. Há quatro semanas, a mediana do dólar para 2026 já era de R$ 5,20 — o mesmo patamar desta edição —, mas o número de revisões para cima cresceu na última semana, conforme registram as 43 atualizações reunidas no boletim de 29 de junho.
A alta das estimativas recentes ocorre em meio a incertezas fiscais, política monetária ainda restritiva e cenário externo volátil. A projeção para os anos seguintes também subiu: o dólar de 2027 passou de R$ 5,27 para R$ 5,28; o de 2028, de R$ 5,30 para R$ 5,35; e o de 2029 ficou em R$ 5,40. Esses números sinalizam que o mercado espera um câmbio estruturalmente mais alto ao longo do horizonte.
Impacto sobre inflação e custos ao consumidor
O câmbio mais elevado pressiona a inflação por meio de insumos importados — especialmente combustíveis, defensivos agrícolas, máquinas e componentes eletrônicos. Com o IPCA projetado em 5,33%, acima do teto da meta de 4,5%, qualquer pressão adicional dificulta a convergência da inflação para o centro da meta. A Selic em 14,25% ao ano, taxa vigente, já encarece o crédito e reduz o apetite por investimentos no país.
Para os setores agrícola e industrial, a cotação do dólar afeta diretamente a margem de exportadores e a conta de importadores. A combinação de juros altos e câmbio elevado tende a desacelerar a atividade econômica, tornando o cenário mais desafiador para empresas que dependem de insumos dolarizados.
Próximas edições do Focus definirão a tendência
O Banco Central publica o Focus toda segunda-feira. A edição de 6 de julho será a primeira a mostrar se a mediana cheia acompanha a alta das estimativas recentes ou se os ajustes serão revertidos. No horizonte imediato, o mercado monitora a reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e os indicadores fiscais — dois fatores com peso direto sobre as revisões de câmbio nas próximas semanas.











