A taxa básica de juros em 14,25% ao ano mantém o crédito caro e restringe o espaço para novos cortes em 2026. A decisão unânime do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada em 17 de junho, marcou o terceiro corte consecutivo desde março — mas o tom cauteloso do Banco Central indica que a trajetória de queda será lenta e limitada.
O cenário que sustenta juros elevados ficou mais claro no Relatório de Política Monetária, publicado em 25 de junho. O Banco Central revisou a projeção de inflação para 5,2% este ano, acima do teto de 4,50% da meta, e elevou a estimativa de crescimento do PIB de 1,6% para 2%. O órgão manteve em 5% a taxa de juros real neutra usada como referência para a política monetária.
Mercado revisa apostas e projeta apenas mais um corte
A leitura do mercado acompanhou a cautela do BC. O Itaú BBA revisou para cima a projeção da Selic de fim de ano, de 13,75% para 14%, e passou a esperar apenas mais uma redução de 0,25 ponto percentual na reunião de agosto. O relatório, assinado pelo economista-chefe do banco e ex-diretor do BC, Mário Mesquita, avalia que a comunicação recente do Copom indica um “ciclo de calibração” diante do quadro inflacionário.
O Relatório Focus, que consolida projeções de instituições financeiras, mostra IPCA projetado em 4,80% — também acima do teto da meta. A combinação de inflação persistente e juro neutro elevado reduz a margem para quedas mais expressivas da Selic. Para o câmbio, o Itaú passou a projetar dólar a R$ 5,30 no fim de 2026 e R$ 5,50 em 2027, ante R$ 5,15 e R$ 5,35 anteriores.
Crédito mais caro chega ao bolso e ao chão de fábrica
Com a Selic em 14,25%, o custo do dinheiro que chega ao consumidor permanece elevado em cartões, empréstimos pessoais, cheque especial e financiamentos. A taxa básica funciona como referência para bancos precificarem risco, prazo e inadimplência — o que significa juros maiores no varejo, mesmo quando a inflação dá sinais de arrefecimento.
Para a indústria, o ponto sensível é o capital de giro. Empresas que dependem de crédito para comprar insumos, antecipar recebíveis ou financiar máquinas enfrentam custo financeiro maior enquanto a Selic permanece em patamar restritivo. Em Piracicaba, onde o setor industrial tem peso relevante na economia local, o efeito se traduz em decisões mais conservadoras sobre expansão e contratação.
A mesma taxa que pesa no crédito melhora o retorno de aplicações atreladas aos juros, como títulos públicos pós-fixados e fundos ligados ao CDI. Isso altera a escolha entre consumir, investir na operação ou manter caixa remunerado — uma equação que afeta tanto famílias quanto empresas.
Próximo sinal vem em agosto
O próximo encontro do Copom, marcado para agosto, será o termômetro do mercado. Se as projeções de IPCA continuarem acima de 4,50%, o espaço para queda mais intensa dos juros fica menor e a Selic deve encerrar 2026 próxima a 14%. O cenário depende ainda de fatores externos — como a guerra no Oriente Médio e a agenda protecionista dos Estados Unidos — e do ritmo dos estímulos fiscais do governo federal, que influenciaram a revisão do PIB pelo BC.











