A Braskem, maior empresa petroquímica do Brasil, protocola nesta quarta-feira (24/06) uma cautelar protetiva para se blindar contra a cobrança de credores, no meio da renegociação de dívida que chega a quase R$ 50 bilhões. A medida foi confirmada por fontes ligadas às negociações e ocorre poucas semanas depois de a gestora IG4 Capital assumir o controle da companhia.
A cautelar é um instrumento jurídico temporário que suspende ou restringe a execução de cobranças enquanto a empresa busca reorganizar suas obrigações financeiras. No caso da Braskem, o pedido chega em um momento crítico: vencimentos de dívida programados para julho pressionam o caixa e a janela para um acordo extrajudicial com os credores se estreita.
Novos credores entram na jogada
A renegociação ganhou contornos mais complexos nas últimas semanas com a entrada de fundos especializados em reestruturação. Os gestores Elliott e SVP compraram partes da linha de crédito rotativo da Braskem de bancos credores no mercado secundário, e o Elliott também acumulou participações em títulos internacionais da empresa. Esses investidores, conhecidos por adotarem posições mais agressivas em processos de reestruturação, alteram a correlação de forças na mesa de negociação.
A presença de fundos de investimento distorcidos — chamados no mercado de “abutres” — costuma dificultar acordos amigáveis, pois esses players tendem a barganhar descontos maiores ou a exigir garantias adicionais em troca de apoio a planos de recuperação. Para a Braskem, isso significa que a via extrajudicial, preferida pela administração, pode não ser suficiente para conter a pressão.
Origem da crise e mudança de controle
A deterioração financeira da Braskem tem raízes conhecidas. O afundamento de solo em Maceió (AL), atribuído à operação de mineração de sal-gema da empresa, gerou passivos bilionários em indenizações e custos de remanejamento populacional que corroeram o balanço. Somam-se a isso o cenário adverso da indústria petroquímica global, com margens comprimidas pela concorrência asiática.
Em junho, a Novonor (ex-Odebrecht) transferiu suas ações da Braskem para a IG4 Capital, num arranjo de gestão compartilhada com a Petrobras, que também detém participação na petroquímica. A chegada do novo controlador trouxe a expectativa de uma reestruturação acelerada das dívidas — estimadas em cerca de US$ 9,4 bilhões no exterior —, mas a aprovação regulatória na Europa para a aquisição ainda não foi concluída.
O que muda com a cautelar
Na prática, a cautelar altera o ritmo das cobranças e dá à Braskem um fôlego para negociar sem a ameaça imediata de execuções judiciais. Credores e fornecedores aguardam a publicação do texto integral do pedido para medir o alcance da proteção: se amplo, as cobranças ficam concentradas no rito da disputa ativa; se restrito, parte delas pode seguir por vias paralelas.
O efeito imediato sobre o caixa da empresa depende diretamente do escopo definido pela Justiça. Para o mercado de crédito corporativo, a movimentação da Braskem sinaliza um reajuste de risco em papéis de grande porte e pode influenciar a precificação de dívidas de outras companhias do setor.
Os próximos passos incluem a reação formal dos titulares do crédito — especialmente dos fundos que entraram no secundário — e a eventual apresentação de uma proposta de recuperação extrajudicial ou judicial, caso a via consensual não avance. A Petrobras, como sócia, também terá papel decisivo na definição do rumo da reestruturação.










