A ameaça de Donald Trump de impor tarifa de 25% sobre mercadorias brasileiras, com foco no Pix, transformou nesta quarta-feira (3) o sistema de pagamentos do Banco Central no eixo da disputa eleitoral entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. O presidente reagiu em ato com faixa em defesa do Pix e governistas passaram a associar a ofensiva americana à oposição.
“Estou esperando telefonema de Trump. O tarifaço foi baseado numa mentira”, afirmou Lula, que disse aguardar contato do presidente americano e voltou a mirar o secretário de Estado Marco Rubio. A declaração foi feita em evento no qual o Planalto estampou faixa em apoio ao sistema de pagamentos instantâneos.
O Pix é usado por mais de 140 milhões de brasileiros e virou ativo político em ano eleitoral. Aliados do presidente intensificaram ataques a Flávio Bolsonaro após o anúncio, sustentando que a ofensiva tarifária americana teria conexão com a oposição. Não há, no entanto, prova documental pública de que o senador tenha articulado a medida com Washington, e Flávio ainda não respondeu publicamente às acusações.
Sistema criado sob Bolsonaro vira trincheira de Lula
O Pix foi lançado pelo Banco Central em novembro de 2020, durante o governo Jair Bolsonaro, e se consolidou como principal meio de pagamento instantâneo do país. O histórico torna a disputa sensível para os dois lados: o Planalto tenta capitalizar a defesa do sistema enquanto a oposição evita aparecer associada a uma medida estrangeira contra uma ferramenta criada sob o ex-presidente.
No Senado, a PEC 65/2023, que busca dar autonomia financeira ao Banco Central e blindar constitucionalmente o arranjo institucional do sistema, segue suspensa na Comissão de Assuntos Econômicos, sem avanço confirmado. A discussão pública agora sobrepõe regulação financeira, soberania econômica e cálculo eleitoral.
O embate com Washington havia escalado um dia antes, quando Lula chamou Marco Rubio de “latino-americano frustrado” em reação ao tarifaço — episódio já registrado pelo PiraNOT. A nova frente é a defesa explícita do Pix como símbolo de autonomia econômica diante dos Estados Unidos.
Tarifa depende de texto oficial e Flávio segue em silêncio
Os próximos passos dependem da publicação do teor completo da medida americana e do detalhamento da investigação mencionada sobre o Pix. Sem esse documento, não é possível afirmar quais mercadorias brasileiras seriam atingidas, quando a tarifa de 25% entraria em vigor nem quais fundamentos formais sustentam a iniciativa.
Permanece em aberto se Flávio Bolsonaro responderá às acusações de governistas e se a PEC 65/2023 voltará à pauta sob a nova pressão. A consequência imediata é política: o governo tenta converter a ameaça externa em defesa do Pix, enquanto a oposição busca reagir sem assumir o custo de parecer contrária ao sistema que nasceu em seu próprio mandato.










