Piracicaba já esteve muito mais perto do centro do poder nacional do que está hoje. Foi nesta cidade que Prudente de Morais construiu sua carreira política antes de se tornar o primeiro presidente civil da República. Daqui também partiram senadores e deputados federais que atravessaram diferentes períodos da história brasileira, do fim do Império à Constituição de 1988.
Essa história, rica e ao mesmo tempo pouco conhecida pelas novas gerações, voltará às páginas do PIRANOT a partir do próximo domingo, 26 de julho. Depois de alguns anos fora do ar, a coluna “Nossa História” será resgatada em uma temporada especial sobre os personagens ligados a Piracicaba que chegaram ao Congresso Nacional.
Não será uma coleção de homenagens. O método será público: vínculos com a cidade demonstrados, datas conferidas, fontes identificadas, realizações confrontadas com controvérsias e o mesmo critério aplicado a todos. A proposta é abrir os arquivos, recuperar fotografias, contar boas histórias e lembrar como Piracicaba participou de decisões nacionais.
Uma casa de Piracicaba chegou à Presidência
Prudente de Morais não nasceu aqui. Nasceu em Itu, em 1841. Mas foi em Piracicaba, então chamada Constituição, que ele se estabeleceu como advogado, formou família e iniciou a vida pública. Foi vereador, presidiu a Câmara Municipal, tornou-se deputado geral no Império, senador constituinte e presidente da República entre 1894 e 1898.
Sua antiga residência na Rua Santo Antônio ainda existe. Hoje abriga o Museu Prudente de Moraes. É uma construção diante da qual milhares de pessoas passam sem necessariamente imaginar quantas reuniões, conversas e decisões políticas ocorreram dentro daquelas paredes.
Prudente foi o primeiro civil a presidir a República, depois dos governos militares de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Isso é diferente de chamá-lo de “primeiro presidente do Brasil”. O primeiro presidente republicano foi Deodoro. A distinção não diminui Prudente; ao contrário, permite contar sua importância com a precisão que uma série histórica exige.
Uma família de Piracicaba ocupou Câmara e Senado
A história não termina em Prudente. Seu irmão, Manuel de Morais Barros, participou da organização republicana local, foi deputado federal e chegou ao Senado. Paulo de Morais Barros, filho de Manuel e sobrinho de Prudente, nasceu em Piracicaba, tornou-se médico e sanitarista, ajudou na implantação da rede de esgoto e também exerceu mandatos na Câmara e no Senado.
Em outras palavras, os três primeiros personagens da temporada pertencem à mesma família. Isso pode parecer repetitivo à primeira vista, mas é justamente um dos fatos mais impressionantes da nossa história: durante décadas, uma família politicamente formada em Piracicaba ocupou espaços centrais na construção da República.
Depois vieram outros vínculos. João Pacheco e Chaves estudou no Colégio Piracicabano e se formou na Esalq antes de levar temas como café, agricultura e conservação do solo à Câmara. Lino Morganti representou o peso da cana, das usinas e da indústria ligada a Monte Alegre. João Herrmann Neto, Mendes Thame e José Machado passaram pela política municipal antes de exercer mandatos federais.
Uma das seis edições será um episódio regional excepcional sobre Ulysses Guimarães. Ele nasceu em Rio Claro e não representou Piracicaba. A cidade passou a integrar a Região Metropolitana de Piracicaba somente em 2021, quase 29 anos depois da morte do parlamentar. A exceção estará identificada desde o título e permitirá relembrar sua atuação no Congresso, nas Diretas Já e na Constituição de 1988 sem reescrever retroativamente a geografia política.
Nostalgia não é transformar o passado em perfeição
A nova “Nossa História” terá um texto de fácil entendimento, linha do tempo, fotografias, curiosidades e dados históricos. Queremos que o leitor consiga visualizar a Piracicaba de cada época: as ruas, os meios de transporte, as escolas, os engenhos, as fábricas, os jornais e os lugares por onde esses personagens passaram.
Mas nostalgia não pode significar cegueira. Prudente governou durante a destruição de Canudos. A Primeira República excluía mulheres e analfabetos do voto. Alguns dos personagens nasceram dentro de famílias poderosas; outros representaram interesses econômicos específicos. Houve rupturas partidárias, investigações, derrotas e contradições.
Tudo isso faz parte da história. Um personagem não precisa ser tratado como santo para ser importante. E um erro ou uma contradição não apagam automaticamente tudo o que ele realizou. O papel do jornalismo é organizar os fatos, separar memória de propaganda e permitir que o leitor forme seu próprio juízo.
Historiadores locais serão convidados a colaborar
O PIRANOT convidará historiadores, pesquisadores, instituições de memória e famílias que preservam documentos de Piracicaba a colaborar com a temporada. As conversas começam nesta semana. Nenhum acordo ou participação está sendo anunciado neste momento.
Essa participação será valiosa porque história séria não se escreve apenas com lembranças. Ela depende de documentos, atas, jornais, fotografias, cartas, registros eleitorais e confronto entre fontes. Quando houver versões diferentes sobre o mesmo episódio, a divergência será mostrada. Quando não houver comprovação suficiente, o limite também será informado.
A primeira coluna, dedicada a Prudente de Morais, será publicada no domingo, 26. Serão seis edições quinzenais: Prudente; Manuel de Morais Barros; Paulo de Morais Barros; o especial regional sobre Ulysses; um capítulo conjunto sobre João Pacheco e Chaves e Lino Morganti; e o encerramento com João Herrmann Neto, Mendes Thame e José Machado. Ao final, o leitor terá uma linha do tempo da presença política de Piracicaba no Parlamento nacional, com suas grandezas, ausências e contradições.
Uma cidade precisa conhecer o caminho que já percorreu
Piracicaba está sem um deputado federal cuja principal base política e eleitoral seja o município. Esse critério é mais preciso do que apenas nascimento ou residência e ajuda a explicar por que a memória da antiga representação voltou ao debate. Origem municipal, sozinha, não garante capacidade, honestidade ou compromisso público.
O que a história pode fazer é mostrar que Piracicaba já participou de grandes debates nacionais e que essa presença assumiu formas muito diferentes ao longo do tempo. Pode também recordar que representação política não se resume a mandar verbas: envolve formular leis, fiscalizar governos, defender ideias e prestar contas à população.
Resgatar “Nossa História” é devolver ao leitor uma parte da cidade que está espalhada em museus, arquivos e lembranças. É olhar para trás sem viver de passado.
Porque uma cidade que já ajudou a construir a República não pode desconhecer os próprios passos. A partir de domingo, o PIRANOT começará a refazer esse caminho.
Editorial de Júnior Cardoso, diretor-fundador e editor-chefe do PIRANOT.















