O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira (17), durante a cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França, que não pediu uma reunião bilateral com Donald Trump porque Brasil e Estados Unidos ainda negociam a proposta americana de novas tarifas sobre produtos brasileiros.
A declaração explicita o ponto de maior tensão entre os dois governos no encontro internacional: a tentativa de manter aberto o canal comercial enquanto Washington avalia medidas que podem encarecer exportações do Brasil. Lula chamou de “coisa desaforada” a iniciativa de discutir taxação no meio das conversas e indicou que prefere esperar o andamento técnico antes de transformar o impasse em reunião formal entre chefes de Estado.
Trump, por sua vez, disse ter conversado com Lula no G7 e classificou o Brasil como um “país politicamente difícil”. A fala do republicano reforçou o clima de atrito, embora não tenha fechado a porta para novas tratativas. O contato citado por Trump não equivale, até aqui, a uma bilateral organizada entre as delegações.
O pano de fundo é uma investigação comercial americana baseada na Seção 301, instrumento usado pelo governo dos Estados Unidos para examinar práticas de parceiros comerciais e, se considerar necessário, aplicar retaliações. Uma das hipóteses em discussão prevê tarifa de 25% contra produtos brasileiros. Também circula uma cobrança adicional de 12,5% associada a alegações sobre trabalho forçado, o que elevaria o peso potencial das medidas a 37,5% em parte dos casos, caso as propostas avancem nesses termos.
Negociação comercial vira teste político no G7
A ausência de uma reunião formal entre Lula e Trump não significa rompimento diplomático, mas mostra que o Planalto tenta evitar uma foto sem resultado concreto enquanto a tarifa segue sobre a mesa. Para o governo brasileiro, aceitar a lógica da cobrança antes do fim das negociações daria força à pressão americana e reduziria espaço para contestar os fundamentos da medida.
O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, já havia contestado os argumentos dos Estados Unidos para impor tarifas ao Brasil. A linha do Itamaraty é tratar a medida como injustificada e preservar a negociação, mas sem endossar a ameaça de taxação como etapa natural do diálogo comercial.
O impacto preocupa especialmente setores exportadores. Estimativas citadas nas conversas sobre a medida apontam risco bilionário para o agronegócio brasileiro, com potencial de afetar cadeias que dependem do mercado americano. O efeito real, porém, dependerá da lista final de produtos, dos percentuais aplicados e de eventuais exceções negociadas antes da decisão americana.
Prazo de julho mantém pressão sobre Brasília
A decisão final sobre as tarifas está prevista para 15 de julho. Até lá, Brasil e Estados Unidos devem seguir em conversas técnicas, com possibilidade de alteração nos percentuais e no alcance das medidas antes de qualquer formalização por Washington.
Para Lula, o desafio é manter a negociação aberta sem parecer passivo diante de uma ameaça comercial. Para Trump, a disputa oferece um gesto de força em política externa e comercial. No curto prazo, exportadores brasileiros continuam à espera da definição americana sobre quais produtos podem ser atingidos e quanto custará vender ao mercado dos Estados Unidos se a tarifa avançar.











