Negociadores dos Estados Unidos e do Irã finalizaram os termos de um memorando de entendimento de uma página para encerrar as hostilidades no Golfo Pérsico, reabrir o Estreito de Ormuz e estabelecer um cessar-fogo de 60 dias, segundo fontes familiarizadas com as conversações. O acerto, no entanto, ainda não foi assinado pelo presidente Donald Trump, cuja aprovação é descrita como “incerta” por assessores próximos, e aguarda resposta formal do governo iraniano em um prazo de 48 horas.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, afirmou nesta quinta-feira (28) que as partes estão “muito próximas” de um entendimento, mas condicionou qualquer anúncio ao aval de Trump. “Há progresso real na mesa de negociação, mas o presidente ainda não deu a palavra final”, disse Vance, em declaração reproduzida por agências internacionais. A Casa Branca, por sua vez, classificou como “totalmente fabricado” um documento exibido pela televisão estatal iraniana que sugeria a existência de um pacto já selado entre Washington e Teerã.
O impasse diplomático ocorre em meio a acusações cruzadas. O Irã sustenta que os Estados Unidos violaram compromissos anteriores de cessar-fogo enquanto prosseguem as tratativas — alegação que Washington nega. Apesar das tensões, o teor do memorando em discussão indica avanços concretos: além da trégua temporária e da liberação da passagem marítima, o texto prevê a retomada das negociações sobre o programa nuclear iraniano, suspensas desde o colapso do Plano de Ação Conjunto Global (JCPOA).
O peso estratégico do Estreito de Ormuz
O Estreito de Ormuz, situado entre o Irã e Omã, é a principal artéria do comércio global de petróleo. Por ali transitam aproximadamente 20% de todo o consumo mundial da commodity — cerca de 21 milhões de barris por dia, segundo dados da Administração de Informação de Energia dos EUA (EIA). O fechamento da rota, provocado pela escalada militar nas últimas semanas, pressionou as cotações do barril de Brent para acima de US$ 95 e desencadeou alertas em cadeia nos mercados emergentes.
Para o Brasil, nono maior consumidor mundial de derivados de petróleo, a interrupção tem impacto direto na formação de preços da gasolina, do diesel e do querosene de aviação. A Petrobras, que opera com defasagem em relação ao mercado internacional, monitora a evolução das negociações para calibrar sua política de reajustes. O Banco Central brasileiro também acompanha o desdobramento, uma vez que a volatilidade do petróleo afeta as projeções de inflação e a trajetória da taxa Selic.
O que está em jogo no memorando
Os termos reportados do entendimento preliminar incluem quatro pilares centrais: um cessar-fogo temporário de 60 dias com mecanismo de monitoramento internacional; a reabertura imediata do Estreito de Ormuz para navegação comercial; a retomada das conversas sobre o enriquecimento de urânio iraniano; e a assinatura de um memorando de uma página como marco inicial para negociações mais amplas. O formato enxuto do documento — apenas uma página — reflete a urgência de ambas as partes em conter a crise antes que o conflito se alastre para outras frentes no Oriente Médio.
A chancelaria iraniana, por meio de seu porta-voz, indicou que o líder supremo, aiatolá Ali Khamenei, foi consultado sobre os termos e que a resposta oficial será comunicada dentro do prazo estabelecido. Diplomatas europeus que acompanham as conversas indiretas — realizadas com mediação de Omã e da Suíça — avaliam que o tom das últimas rodadas foi “cautelosamente construtivo”, embora ressaltem que “nada está fechado até que as duas capitais digam sim”.
Reação em Washington e o fator Trump
A hesitação de Trump em referendar o acordo reflete, segundo analistas, o cálculo político doméstico de um presidente que construiu sua plataforma de política externa sobre a ideia de “paz pela força” e que enfrenta pressões de alas mais duras do Partido Republicano. Assessores do Conselho de Segurança Nacional têm trabalhado para convencer o presidente de que o memorando representa uma vitória tática — a reabertura de Ormuz sem concessões irreversíveis no dossiê nuclear —, mas a decisão final permanece em aberto.
Enquanto isso, o governo iraniano lida com suas próprias fissuras internas. Setores da Guarda Revolucionária veem com desconfiança qualquer aproximação com Washington, e a TV estatal chegou a divulgar um suposto rascunho do acordo — prontamente desmentido pela Casa Branca — em uma aparente tentativa de constranger os negociadores americanos e forçar um posicionamento público.
Brasil e a comunidade internacional
O Itamaraty não havia divulgado, até o fechamento desta edição, um posicionamento oficial sobre as negociações. A ausência de manifestação contrasta com a postura de outros países do BRICS, como Índia e China, que já emitiram comunicados defendendo uma solução diplomática para a crise. O silêncio brasileiro ocorre em um momento em que a Petrobras calcula os efeitos da volatilidade sobre sua política de preços e o governo avalia medidas de contingência para o abastecimento interno de combustíveis.
O acervo histórico do PIRANOT registra que as tensões no Golfo Pérsico vêm se agravando desde o início de 2026, quando o Irã retomou o enriquecimento de urânio a 60% e os EUA reforçaram sua presença naval na região. O atual memorando, se confirmado, representará o primeiro entendimento formal entre os dois países desde a retirada unilateral americana do acordo nuclear, em 2018.
A comunidade internacional acompanha as próximas 48 horas com expectativa. O sucesso ou fracasso do memorando terá repercussões que vão muito além do Golfo Pérsico — dos postos de combustível nas cidades brasileiras às mesas de negociação das grandes potências, o destino de uma das rotas mais estratégicas do planeta está, mais uma vez, nas mãos de poucos homens em Washington e Teerã.











