O governo dos Estados Unidos oficializou, nesta quinta-feira (28), a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais. A medida, que entrará em vigor no dia 5 de junho, foi anunciada pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, que afirmou em comunicado: “O CV e o PCC são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil”.
A designação como Organizações Terroristas Estrangeiras era temida pelo Palácio do Planalto, que foi pego de surpresa. Na véspera, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) reuniu-se com Rubio em Washington e afirmou que o secretário se mostrou favorável à classificação. A aproximação do parlamentar com a Casa Branca é vista como um trunfo político que deve ser explorado na campanha eleitoral, reforçando o discurso de segurança pública.
Segundo fontes do governo brasileiro ouvidas pela reportagem, o Planalto teme que a classificação legitime ações unilaterais dos EUA, como sanções contra autoridades brasileiras ou, em cenário extremo, uma intervenção militar. A preocupação ganhou força após o recente caso da Venezuela, onde, em janeiro de 2025, uma designação semelhante do regime de Caracas como ameaça terrorista foi usada como justificativa para a invasão do país por forças multinacionais e a prisão do então presidente Nicolás Maduro.
Internamente, o governo calibrará o tom de sua reação para não soar como “proteção a bandidos”, segundo assessores. O encontro bilateral entre Lula e o presidente Donald Trump, ainda sem data definida, deve ser pressionado pelo tema. A avaliação é de que a designação fortalece a narrativa oposicionista de fragilidade no combate ao crime organizado durante a gestão petista.
Do ponto de vista prático, a medida permite aos EUA congelar ativos de membros do PCC e do CV, proibir transações financeiras e vetar a entrada de seus líderes no território americano. A cooperação policial entre os dois países também pode ser aprofundada, mas o Itamaraty teme que o principal efeito colateral seja a imposição de restrições a empresas e cidadãos brasileiros que mantenham qualquer tipo de vínculo com as facções, mesmo de forma indireta.
“Não fomos consultados formalmente e a decisão, embora soberana, pode gerar ruídos na cooperação bilateral”, disse um diplomata brasileiro que pediu anonimato. O comunicado do Departamento de Estado acrescenta que “os Estados Unidos estão comprometidos em combater o crime organizado transnacional e proteger seus cidadãos e aliados de ameaças terroristas”.
Como noticiou o PIRANOT na noite de quarta-feira, a decisão surpreendeu o Itamaraty, que tentava evitar a designação temendo interferência externa no combate ao crime organizado. Outros veículos de imprensa, como O Globo e G1, também detalharam as reações do governo. A reportagem, no entanto, não obteve mais citações diretas de fontes oficiais além das mencionadas.
A segurança pública ressurge como tema central do debate eleitoral. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, afirmou que a decisão americana é “um alerta para que o Brasil reforce suas instituições”. Parlamentares da oposição já articulam a criação de uma CPI das Facções, o que deve aumentar a pressão sobre o governo.
Especialistas consultados pela imprensa apontam que, embora a designação seja mais simbólica do que efetiva no curto prazo, ela altera o status jurídico das facções em tribunais internacionais e pode facilitar processos de extradição. A medida também coloca o Brasil sob maior escrutínio em fóruns multilaterais, podendo afetar investimentos e a imagem do país no exterior.
O PCC e o CV, com atuação em tráfico de drogas, armas e lavagem de dinheiro, já possuem ramificações em mais de 30 países. A designação americana deve acelerar a cooperação internacional para sufocar financeiramente essas organizações, mas o receio de um intervencionismo na soberania brasileira permanece no horizonte.











