O governo de Minas Gerais fixou em R$ 47,23 o preço mínimo por ação para a venda do controle da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa). A definição consta de fato relevante divulgado pela estatal na quarta-feira (28) e reabriu o prazo para a apresentação de propostas pelos grupos interessados, que agora vai até 3 de junho. O movimento afastou os temores de paralisação do processo e foi bem recebido pelo mercado: as ações da Copasa (CSMG3) encerraram o dia cotadas a R$ 52,94, uma alta de 4,3%.
A definição do valor mínimo ocorreu após o governo estadual considerar insatisfatórias as ofertas iniciais apresentadas por Equatorial Energia e pelo consórcio Aegea — formado por Aegea Saneamento, Itaúsa, fundo soberano de Singapura GIC e Equipav. No dia 27, diante da ausência de uma definição, os papéis chegaram a cair 7%, para R$ 50,75, em um dia de forte volume financeiro, que somou R$ 223,1 milhões. A investida do governo em retomar o cronograma, estabelecendo nova data para o preço final (12 de junho) e para as negociações em bolsa (15 de junho), inverteu o pessimismo.
A privatização da Copasa é um dos maiores processos de desestatização em saneamento do país. A companhia responde pelo abastecimento de água e coleta de esgoto em centenas de municípios de Minas Gerais e integra um movimento de consolidação do setor, que teve o novo marco legal do saneamento como catalisador. Em outubro de 2025, a Assembleia Legislativa mineira aprovou, em primeiro turno, Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que retirou a exigência de consulta pública para privatização de estatais, destravando a operação. À época, o texto recebeu 52 votos favoráveis e 18 contrários — apenas quatro a mais que o mínimo necessário.
O processo se insere em um ciclo de privatizações de companhias estaduais de saneamento que ganhou força após a aprovação do novo marco legal do setor, em 2020. O texto estabeleceu metas de universalização do acesso à água tratada e à coleta de esgoto até 2033, exigindo investimentos bilionários que muitos estados sozinhos não conseguiriam suprir. Companhias como Cedae (RJ), Compesa (PE) e Corsan (RS) já foram à bolsa ou tiveram processos de concessão encaminhados sob a lógica de que o capital privado é essencial para acelerar a modernização da infraestrutura.
A Copasa atende cerca de 11 milhões de pessoas em mais de 600 municípios, com uma cobertura de água que beira os 95% e de esgoto em torno de 75%, segundo os dados mais recentes do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS). A cifra de R$ 47,23 por ação representa um desconto de 6,9% sobre o fechamento do dia 27, mas analistas avaliam que o patamar ainda embute um prêmio pelo controle e pela perspectiva de expansão dos serviços, uma vez que os contratos de concessão exigirão investimentos pesados para cumprir as metas de universalização.
Apesar de o processo estar em curso, ainda pairam dúvidas sobre o desfecho. As propostas iniciais, segundo fontes que acompanham as negociações, ficaram abaixo do valor que o governo esperava, e a redefinição do preço mínimo busca calibrar as expectativas. O imbróglio expõe a complexidade política da venda: a retirada da exigência de referendo foi alvo de críticas da oposição, e há questionamentos sobre a legalidade do processo. O Tribunal de Contas do Estado (TCE-MG) chegou a firmar acordo com a Associação Mineira de Municípios (AMM) para destravar a regulação do saneamento em 273 cidades, sinal de que o tema seguirá sob escrutínio mesmo após a transferência de controle.
Procurada, a assessoria de imprensa da Copasa informou que o comunicado oficial com os detalhes da oferta está disponível no site de relações com investidores, mas não forneceu declarações adicionais. O PIRANOT também tentou contato com Equatorial e Aegea, porém não houve retorno até a publicação desta reportagem. A ausência de posicionamentos diretos dos licitantes limita a análise sobre as estratégias em jogo, embora o apetite demonstrado pelo mercado acionário indique confiança de que o leilão será concluído.
Como o PIRANOT reportou em 27 de maio, o governo mineiro já havia adiado a escolha do parceiro para reavaliar os termos da concorrência. Agora, com o novo cronograma e a sinalização de que o valor mínimo é alcançável, o caminho parece mais claro para que a Copasa passe a ter controle privado — um desfecho que, se confirmado, reconfigurará o mapa do saneamento no Sudeste.











