O Papa Leão XIV apresentou nesta segunda-feira (25), no Vaticano, sua primeira encíclica, intitulada “Magnifica Humanitas” (“Magnífica Humanidade”), um documento de 42.300 palavras que aborda os riscos da inteligência artificial para a dignidade humana e o trabalho. O texto, lançado no 382º dia de seu pontificado, estabelece um paralelo entre os desafios atuais da tecnologia e as transformações da Revolução Industrial — conexão já sinalizada pela escolha do nome “Leão”, em referência a Leão XIII, autor da encíclica “Rerum Novarum” (1891) sobre direitos trabalhistas.
O documento foi apresentado durante evento no Vaticano com a presença de Christopher Olah, co-fundador da Anthropic, uma das empresas líderes mundiais no desenvolvimento de inteligência artificial. A escolha reforça o caráter prático da encíclica: não se trata de uma condenação abstrata, mas de uma intervenção no debate global sobre regulação tecnológica.
Ao argumentar sobre a responsabilidade ética na era tecnológica, o pontífice recorreu a uma referência inesperada: uma citação de Gandalf, personagem de J.R.R. Tolkien em “O Senhor dos Anéis”. No parágrafo 213 do documento, ao discutir os riscos de desumanização do trabalho pela tecnologia, Leão XIV utiliza a literatura para ilustrar seu conceito central: a necessidade de um “desarmamento tecnológico” da inteligência artificial.
‘A IA precisa ser desarmada’
“A IA precisa ser desarmada”, sustenta o documento. O Papa pede medidas concretas para “impedir que domine a humanidade” e alerta sobre os riscos de a nova tecnologia contribuir para a desumanização e o reforço do poder de quem controla recursos econômicos, além do agravamento das desigualdades. A expressão “desarmamento” carrega peso específico: sugere que a inteligência artificial, como qualquer ferramenta poderosa, precisa de limites acordados coletivamente.
Leão XIV apela à sociedade e aos desenvolvedores de IA para que implementem “critérios de justiça social partilhada”, de modo a combater o que chama de “visão anti-humana” na aplicação da tecnologia. A encíclica é endereçada a “todos os fiéis católicos, todos os cristãos e todos os homens e mulheres de boa vontade” — abrangência que reflete a dimensão universal que o Vaticano pretende dar ao debate.
O documento também traz um raro mea-culpa da Igreja Católica: Leão XIV pede perdão pela demora da instituição em condenar a escravidão. O reconhecimento integra uma postura de autocrítica que dialoga com a tradição de transparência e revisão de posições institucionais — a encíclica não se limita a denunciar riscos externos, mas propõe caminhos para uma convivência ética entre humanidade e inteligência artificial.
Tradição de quase 400 anos
As encíclicas são documentos de quase 400 anos de tradição, usados para orientar os fiéis da Igreja Católica sobre questões relevantes. A escolha do tema da inteligência artificial demonstra que a Igreja acompanha de perto as transformações tecnológicas e seus impactos na vida humana. Papa Francisco, antecessor de Leão XIV, já havia abordado a tecnologia em “Laudato Si'” (2015), documento sobre ecologia digital.
A referência a Tolkien no documento não é meramente retórica — o autor, conhecido por sua obra fantástica, também era um estudioso de filologia e um pensador profundo sobre moral e responsabilidade. Ao trazer Gandalf para o texto, Leão XIV aproxima a linguagem da Igreja de um público mais amplo, demonstrando que as questões éticas da era digital não são privilégio de especialistas.
Impacto no debate global
O Vaticano deve intensificar o diálogo com governos e organismos internacionais sobre regulação de IA nos próximos meses. A encíclica estabelece princípios que podem orientar políticas públicas e decisões empresariais em escala global. A referência a Tolkien, por sua vez, amplia o alcance da mensagem para além dos círculos religiosos tradicionais, inserindo a discussão ética sobre tecnologia no debate cultural contemporâneo.











