Entidades ligadas ao movimento Mães de Maio formalizaram denúncia junto à Organização das Nações Unidas (ONU) cobrando apuração sobre a omissão do Estado brasileiro nos Crimes de Maio de 2006. O episódio deixou dezenas de mortos em operações policiais no estado de São Paulo.
O grupo sustenta que as mortes expõem um padrão sistemático de violência que atinge desproporcionalmente jovens negros e moradores de periferias. Segundo os denunciantes, as ações carregam fortes indícios de execução. “Nossos filhos pagaram por guerra que não era deles”, afirmou uma das integrantes do coletivo. A denúncia internacional ocorre em meio a uma sequência de operações policiais com suspeitas de desvio de conduta letal em São Paulo e no Rio de Janeiro.
Denúncia internacional e o luto das mães
A representação entregue à ONU menciona operações como Verão, Escudo e Contenção, que resultaram em elevado número de mortes de civis. Para os movimentos de direitos humanos, a recorrência desses episódios revela a permanência de uma lógica de extermínio. O relato das mães ecoa a dor de famílias que perderam jovens atingidos por essas ações.
Segundo a documentação apresentada ao organismo internacional, as operações seguem um mesmo roteiro: surgem como retaliação pela morte de agentes do Estado e são marcadas por suspeitas de execuções sumárias. O padrão se repete em diferentes estados. “Na Bahia, é a polícia que mais mata em termos absolutos no Brasil. Em todos os estados, Minas Gerais, Santa Catarina… O sistema é o mesmo”, analisa o tenente-coronel aposentado Adilson Paes de Souza, pesquisador sobre letalidade e violência policial.
Raízes na ditadura e decreto-lei ainda vigente
A Polícia Militar foi criada por decreto-lei inspirado no Ato Institucional nº 5 (AI-5), o mais duro instrumento de repressão da ditadura. A constatação é do próprio Souza, autor do livro “O Guardião da Cidade”. “O sistema é o mesmo. O que eu quero deixar bem claro é o seguinte: o sistema de eliminação real das pessoas, a execução sumária ou simbólica e o encarceramento em massa está operando desde a ditadura”, afirmou o pesquisador.
O decreto-lei de 1969 que estruturou as PMs continua em vigor, apesar da sanção da Lei Orgânica das Polícias Militares em 2023. A Constituição de 1988, segundo o especialista, não alterou as funções ostensivas nem criou um policiamento civil nas ruas. “A ditadura não saiu da segurança pública”, resumiu. Para ele, operações recentes em São Paulo, como a Operação Escudo, repetem o modelo de retaliação com vítimas majoritariamente jovens negros.
Letalidade policial como política de Estado
As operações Verão, Escudo e Contenção repetem esse padrão: retaliação por mortes de agentes e suspeitas de execuções sumárias, sem chance de defesa. O tenente-coronel aposentado detalha a recorrência dessas ações. “Isso acontece com recorrência no estado de São Paulo. Tivemos várias ações como a Operação Verão e a Operação Escudo. No Rio de Janeiro, a gente teve também uma operação recente [Contenção]. O padrão é o mesmo”, afirma Souza.
Apesar dos indícios de execuções e da repetição do modelo em periferias, parcela da imprensa, da população e da classe política ainda associa o extermínio e o encarceramento em massa a eficiência no combate ao crime. A naturalização da violência estatal, segundo o pesquisador, perpetua um ciclo de impunidade que remonta ao regime militar.
❓ Perguntas frequentes
O que foram os Crimes de Maio de 2006?
Foram uma série de mortes ocorridas em operações policiais no estado de São Paulo durante maio de 2026. Entidades de direitos humanos apontam que as ações tiveram fortes indícios de execução e atingiram majoritariamente jovens negros de periferias.
Por que o sistema de segurança pública é considerado o mesmo da ditadura?
Segundo o pesquisador Adilson Paes de Souza, a Polícia Militar foi criada por decreto-lei de 1969 que ainda está em vigor. A lógica de eliminação real e simbólica de pessoas e o encarceramento em massa operam desde o regime militar, agora direcionados a pretos e pobres.
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