Um monomotor que caiu sobre um prédio residencial em Belo Horizonte na tarde de segunda-feira (4) não tinha autorização para operar como táxi aéreo, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). A aeronave, fabricada em 1979, deixou três mortos e expôs uma brecha na fiscalização de voos privados que cruzam áreas densamente povoadas.
O avião decolou do Aeroporto da Pampulha às 12h16 com destino ao Aeroporto Campo de Marte, em São Paulo. Apenas cinco minutos depois, às 12h21, colidiu contra um edifício no bairro Silveira, região Nordeste da capital mineira, conforme dados do Corpo de Bombeiros e da NAV Brasil.
A tragédia reacendeu o debate sobre a segurança de aeronaves antigas em operação privada. O modelo, um Neiva EMB-721C com capacidade para piloto e cinco passageiros, estava com certificado de aeronavegabilidade válido até 2027, mas não atendia às exigências do Regulamento Brasileiro da Aviação Civil (RBAC) 135 para serviços comerciais.
Alerta mayday e cronologia do acidente
Peritos do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (CENIPA) confirmaram que o piloto emitiu um alerta mayday segundos antes do impacto. O registro de voz da cabine captou a chamada de socorro, mas a curta duração entre o alerta e a colisão sugere que houve pouquíssimo tempo para reação.
“O piloto tentou comunicar uma emergência a bordo, mas o intervalo foi extremamente curto”, afirmou o brigadeiro Marcelo Kanitz Damasceno, chefe do CENIPA, em entrevista coletiva. A investigação agora apura se a falha foi mecânica ou operacional, e por que o voo privado assumiu características de táxi aéreo.
A rota prevista incluía uma escala em Belo Horizonte antes de seguir para São Paulo. A aeronave havia sido vendida recentemente, e a transferência de propriedade ainda tramitava na ANAC, segundo a agência.
Vítimas e sobreviventes: o impacto humano
A queda do monomotor deixou três mortos: o piloto Wellington de Oliveira Pereira, de 34 anos, e os passageiros Fernando Moreira Souto, de 36, e Leonardo Berganholi Martins, de 50. Fernando Souto era o proprietário do avião e atuava como copiloto no voo, conforme apurado pela reportagem.
Dois ocupantes sobreviveram com ferimentos graves. Arthur Schaper Berganholi, de 25 anos, e Hemerson Cleiton Almeida Souza, de 53, foram resgatados pelos bombeiros e levados ao Hospital João XXIII, onde seguem internados. Não há detalhes oficiais sobre o estado de saúde deles.
A tragédia também atingiu os moradores do edifício. Claudete Martins, que estava em seu apartamento no momento do impacto, relatou que o motor do avião bloqueou a porta de sua casa. “Ouvi um estrondo muito forte, as paredes tremeram. Quando fui ver, a porta não abria, estava travada por alguma coisa”, disse. Ela só conseguiu sair com a ajuda dos bombeiros.
Aeronave de 1979 e a lacuna na regulamentação
O Neiva EMB-721C foi fabricado pela Embraer em 1979, há quase 50 anos. Apesar da idade, o certificado de aeronavegabilidade estava válido até 1º de abril de 2027, segundo a ANAC. O problema, porém, estava na categoria de registro: uso privado, sem permissão para táxi aéreo.
Para operar voos comerciais, a aeronave precisaria atender ao RBAC 135, que impõe requisitos mais rigorosos de manutenção, treinamento de tripulação e seguro. A venda recente do avião, ainda em processo de transferência na ANAC, pode ter contribuído para a confusão operacional.
A combinação de um modelo antigo com a fiscalização frouxa de operações privadas preocupa especialistas. O bairro Silveira, onde ocorreu o acidente, é uma área densamente povoada e fica sob a rota de decolagem da Pampulha — aeroporto que movimenta tanto voos comerciais quanto privados.











