A BioNTech anunciou o fechamento de quatro fábricas e a demissão de até 1.860 funcionários, em um plano de reestruturação que reflete o colapso na demanda por vacinas de mRNA contra a Covid-19. A decisão, comunicada em 5 de maio de 2026, atinge três unidades na Alemanha e uma em Singapura, e projeta economia de até 500 milhões de euros anuais até 2029.
O primeiro trimestre de 2026 expôs a dimensão da crise: as vendas da vacina Comirnaty despencaram 35%, somando apenas 118,1 milhões de euros, conforme balanço da própria empresa. O prejuízo saltou para 531,9 milhões de euros, agravado pela aquisição bilionária da CureVac em 2025, transação de US$ 1,25 bilhão que pesou nas contas.
A reestruturação, a maior da história da companhia alemã, ocorre em um momento de transição de liderança. Os fundadores Ugur Sahin e Ozlem Tureci deixarão os cargos de CEO e diretora médica até o final de 2026, conforme anúncio prévio, para iniciar um novo negócio. A empresa agora redireciona esforços para terapias de mRNA contra o câncer.
O tombo financeiro que derrubou a produção
O balanço do primeiro trimestre de 2026 revelou a velocidade da deterioração. As receitas com a vacina Covid-19 caíram para 118,1 milhões de euros, uma retração de 35% em relação ao mesmo período do ano anterior, puxada pela queda nos mercados europeu e norte-americano. O prejuízo de 531,9 milhões de euros representou um aumento de 27,9% sobre as perdas de 415,8 milhões de euros registradas em 2025.
A aquisição da CureVac, concluída por US$ 1,25 bilhão, ampliou o rombo. As unidades adquiridas também deixarão de produzir imunizantes, conforme o plano de consolidação. A empresa projeta que os cortes gerem uma economia anual de até 500 milhões de euros até 2029.
“Planejamos alinhar e consolidar ainda mais nossa rede de fabricação onde se espera que a demanda seja mais estável”, declarou a BioNTech, sem especificar regiões. A frase, extraída do comunicado oficial, sinaliza o abandono da produção em larga escala de vacinas pandêmicas.
Saída dos fundadores e novo foco no câncer
A reestruturação coincide com a saída dos fundadores Ugur Sahin e Ozlem Tureci, que deixarão a gestão executiva ao final de seus mandatos em 2026. O casal de cientistas, que liderou a criação da vacina Comirnaty em parceria com a Pfizer, comunicou que iniciará um novo empreendimento.
A transição ocorre enquanto a BioNTech aposta em terapias de mRNA contra o câncer como nova frente de receita. As quatro fábricas fechadas — três na Alemanha até o final de 2027 e uma em Singapura no primeiro trimestre de 2027 — eram originalmente dedicadas à produção de vacinas Covid-19. A empresa não detalhou como manterá o fornecimento a mercados que ainda dependem de seus imunizantes.
A saída dos fundadores adiciona incerteza sobre a continuidade da cultura científica que impulsionou a empresa. Analistas questionam se a nova liderança manterá o foco em inovação ou priorizará a recuperação financeira de curto prazo.
O vácuo no fornecimento global de vacinas
A concentração da produção em poucos polos eleva o risco de desabastecimento em países em desenvolvimento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) já havia alertado, em relatório de 2025, que a dependência de poucos fabricantes de vacinas de mRNA fragiliza a segurança sanitária global, especialmente diante de novas variantes.
O Brasil não é mencionado no anúncio, mas a dependência de insumos de mRNA acende um alerta. Dados do Ministério da Saúde indicam que, desde 2021, o país adquiriu mais de 300 milhões de doses da vacina Comirnaty. A reestruturação da BioNTech deixa em aberto se a Pfizer assumirá integralmente a fabricação ou se haverá quebra de contratos vigentes.
A empresa alemã não detalhou planos para manter o fornecimento a mercados periféricos. A declaração oficial limitou-se a afirmar que a rede será consolidada onde a demanda for “mais estável”, sem citar regiões específicas. O silêncio preocupa gestores de programas nacionais de imunização.











