Pela primeira vez em 132 anos, o Senado rejeitou um indicado ao Supremo Tribunal Federal. A derrota do advogado-geral da União, Jorge Messias, abriu uma crise sem precedentes no terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva e deu munição à oposição para classificá-lo como “pato manco”.
Agora, o presidente brasileiro tenta reagir. O encontro com Donald Trump, marcado para quinta-feira (7), é visto no Planalto como uma janela para mostrar força internacional e desarmar a narrativa oposicionista. A conversa telefônica que selou a reunião ocorreu na semana passada, em meio ao turbilhão político.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RS) lidera a ofensiva. Em março, discursou na CPAC e pediu que os EUA “observem as eleições do Brasil com enorme atenção”. Agora, tenta se vender como aliado de Trump na campanha eleitoral, conforme apuração do InfoMoney.
Rejeição histórica abala o Planalto
A rejeição de Messias é um marco. É a primeira vez desde 1894 que o Senado barra um nome para a Suprema Corte. O episódio expôs a fragilidade da base governista e deu à oposição um trunfo retórico.
Lula avalia como reagirá à atuação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), contra o indicado. O encontro com Trump surge como contraponto: uma tentativa de projetar relevância global em meio ao desgaste doméstico.
“O presidente precisa mostrar que ainda tem capacidade de articulação internacional”, avaliou um interlocutor do Planalto, sob reserva. A aposta é que a foto ao lado do líder americano reduza o ímpeto da oposição.
Agenda bilateral sob tensões comerciais
O encontro entre Lula e Trump ocorre sob a sombra de tensões comerciais não resolvidas. Embora a Suprema Corte americana tenha derrubado, em fevereiro, o tarifaço de 50% sobre produtos brasileiros, o Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) mantém investigações sobre supostas práticas desleais do Brasil e da China, conforme divulgado pelo órgão.
A pauta inclui ainda a possível classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas. O Departamento de Estado considera as facções uma “ameaça relevante à segurança regional”. O governo brasileiro vê a iniciativa com receio de perda de soberania e deve buscar alternativas de cooperação em lavagem de dinheiro e tráfico de armas.
Outro tema sensível é a exploração de minerais críticos. Washington propôs um preço mínimo para esses recursos e convidou o Brasil a integrar coalizão internacional, mirando reservas de lítio, grafita e terras raras para reduzir a dependência da China.
Minerais críticos: o trunfo brasileiro
O Brasil possui reservas estratégicas de lítio, grafita e terras raras, essenciais para tecnologias de energia limpa e defesa. A proposta americana de um mecanismo de preço mínimo pode atrair investimentos em mineração e processamento, mas há receio de que os EUA exijam concessões políticas.
A oferta chega em um momento de fragilidade doméstica para Lula. A rejeição histórica de seu indicado ao STF pode limitar sua margem de negociação. Analistas apontam que Trump tem histórico de usar líderes estrangeiros em benefício próprio, o que torna o resultado do encontro incerto.
Ainda assim, o Planalto aposta que a reunião renda acenos positivos. “É uma oportunidade de mostrar que o Brasil não está isolado”, disse uma fonte governamental ao InfoMoney. A eficácia da estratégia, porém, dependerá da disposição de Trump em sinalizar apoio real.











