O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) anunciou a realização do primeiro Censo Nacional da População em Situação de Rua, com coleta programada para ocorrer entre 3 e 7 de julho de 2028. A iniciativa, inédita no país, pretende contabilizar e caracterizar socioeconomicamente um grupo estimado em 365 mil pessoas – número que, segundo especialistas, pode estar subnotificado. Os primeiros resultados devem ser divulgados em dezembro do mesmo ano, mas a execução do projeto depende da aprovação de recursos no Congresso Nacional, o que gera incertezas sobre o cronograma.
Metodologia inovadora e participação social
O censo foi desenvolvido em diálogo com movimentos sociais e organizações que atuam junto à população em situação de rua. O presidente do IBGE, Marcio Pochmann, destacou o caráter pioneiro da abordagem. “A metodologia que estamos construindo é inovadora e será referência para o mundo”, afirmou Pochmann durante o evento de lançamento, conforme reportado pela Agência Brasil.
Uma das principais inovações é a contratação de pessoas com vivência de rua como recenseadores, em parceria com entidades da sociedade civil. A medida visa reduzir a desconfiança dos abordados e melhorar a qualidade dos dados coletados. Questionários adaptados e treinamento específico também integram a estratégia para evitar constrangimentos e garantir um levantamento fidedigno.
Desafios orçamentários e políticos
O orçamento do censo ainda não foi divulgado e depende da proposta orçamentária federal a ser enviada ao Congresso em agosto de 2026. A aprovação dos recursos é incerta, em meio a disputas fiscais e prioridades políticas. “A gente precisa de recursos para fazer o censo. Sem orçamento, não tem censo”, alertou o coordenador do projeto, Carlos Henrique, em declaração à Agência Brasil.
Críticos apontam que o período de coleta de apenas cinco dias pode subnotificar a população real, especialmente em áreas de difícil acesso, como regiões metropolitanas extensas e locais com alta mobilidade. A desconfiança dos abordados e a dificuldade de localização são desafios adicionais reconhecidos pelo próprio IBGE.
Estimativas atuais e subnotificação
Atualmente, os dados sobre a população em situação de rua no Brasil são fragmentados, baseados em registros administrativos e pesquisas amostrais. O IBGE estima em 365 mil o número de pessoas nessa condição, mas especialistas consideram o número subnotificado. “A população em situação de rua é invisível para as estatísticas oficiais”, afirmou Pochmann, ressaltando a importância do censo para superar essa lacuna.
A iniciativa pretende, pela primeira vez, traçar um retrato nacional unificado, com informações socioeconômicas detalhadas que sirvam de base para políticas públicas. A metodologia incluiu consultas a movimentos sociais e a realização de testes-piloto para ajustar os instrumentos de coleta.
Impacto para políticas públicas e referência global
Os resultados do censo deverão subsidiar a formulação de políticas nas áreas de assistência social, saúde, habitação e trabalho. A expectativa é que os dados permitam um diagnóstico mais preciso das necessidades dessa população, orientando a alocação de recursos e a criação de programas específicos.
Marcio Pochmann afirmou que a metodologia desenvolvida poderá servir de referência para outros países. “O Brasil pode se tornar um exemplo global de como contar e compreender essa população”, declarou. No entanto, a concretização do projeto ainda depende da garantia de recursos, o que mantém em aberto a plena execução do censo conforme o planejado.











