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Inteligência Artificial: ter ou não ter, eis a questão. Será mesmo?
À primeira vista, pode parecer apenas mais um texto sobre IA, competências do futuro, profissões ameaçadas e todas aquelas previsões que já circulam diariamente nas redes, especialmente no LinkedIn. Como se já não tivéssemos argumentos suficientes para entender que a IA deixou de ser tendência distante e passou a fazer parte da vida real das empresas.
Mas talvez a pergunta mais importante já não seja se devemos ou não usar IA. Essa conversa ficou pequena. A questão agora é outra: o que acontece com a cultura de uma empresa quando a Inteligência Artificial entra no processo?
A IA veio para ficar. Mais do que isso, ela vai redesenhar funções, relações de trabalho, modelos de gestão e, sim, eliminar atividades que durante muito tempo foram executadas por pessoas. E não adianta sustentar o debate apenas no campo emocional, dizendo que há coisas que a IA jamais conseguirá substituir, como a empatia humana. Essa afirmação precisa ser tratada com menos conforto e mais seriedade.
Afinal, sejamos honestos: você nunca ousou conversar com uma IA sobre algum dilema pessoal, profissional ou emocional? Se fizer isso com atenção, talvez perceba que ela já está ficando bastante “empaticona”. Em alguns casos, inclusive, pode demonstrar mais escuta, organização e cuidado na resposta do que muita gente por aí. Isso não significa que o humano perdeu valor. Significa apenas que alguns argumentos usados para defender esse valor estão ficando frágeis.
O ponto, portanto, não é mais discutir se a IA é relevante. Se alguém ainda está preso nessa camada da conversa, talvez esteja vivendo em um loop temporal entre os anos 80 e 90, sem perceber que o mundo já virou algumas páginas. A questão agora é ajudar pessoas e organizações a lidarem com a IA como parte integrante da vida, do trabalho e da performance.
E é aqui que o buraco fica mais complexo.
Mais do que estatísticas, trago aqui uma percepção recorrente do trabalho com pessoas e culturas organizacionais: quando uma empresa implanta uma solução de IA, o problema raramente está apenas na ferramenta. O problema costuma aparecer no comportamento de quem precisa utilizá-la, liderá-la ou integrá-la ao processo.
Em outras palavras, muitas vezes o desafio não é o instrumento. É o instrumentista.
Grande parte do nosso trabalho como consultores tem sido lidar com problemas culturais, comportamentais e gerenciais que vêm à tona quando uma empresa decide aplicar IA em seus processos. A tecnologia entra prometendo ganho de eficiência, mas acaba revelando algo mais profundo: desalinhamento, resistência, baixa clareza de papéis, falta de comunicação, insegurança, liderança frágil e ausência de uma narrativa consistente de mudança.
Vou explicar melhor com um exemplo: Uma empresa nos contratou para um trabalho sobre engajamento do time de liderança da área comercial. Na percepção inicial dos donos, o problema era a “falta de vontade” dos vendedores, que não utilizavam a ferramenta de IA como deveriam. Com isso, eles repetiam etapas que o agente de IA já havia filtrado, transmitindo aos clientes uma sensação de desorganização.
A empresa havia implantado, meses antes, um processo de automação para capturar, filtrar e direcionar informações de potenciais clientes. Em tese, a ferramenta deveria facilitar o trabalho comercial, reduzir retrabalho e melhorar a experiência do cliente. Na prática, porém, a equipe continuava usando recursos antigos e analógicos: o velho caderninho, a memória afetiva de alguns vendedores e processos paralelos que já não conversavam com a nova estrutura.
O resultado era uma Ferrari parada na garagem. E pior: com a empresa pagando o IPVA da Ferrari sem conseguir utilizá-la.
Nesse caso, o problema não era a IA em si. O problema era que o processo havia sido implantado sem considerar o estado atual das pessoas. Por mais moderna, tecnológica e promissora que seja uma ferramenta, a mudança não acontece se as pessoas não capturam o sentido dela.
Faltou um trabalho prévio de mudança de mentalidade. E aqui não estou falando apenas de capacitação técnica ou treinamento operacional sobre IA. Estou falando de ajudar o time a entender como aquela solução melhoraria sua performance, seus resultados, sua rotina e sua relação com o cliente. Faltou conectar o humano ao digital.
Por isso, os vendedores não resistiam exatamente à IA. Eles resistiam à ideia equivocada, mal comunicada ou mal compreendida sobre o que a IA veio fazer dentro daquele processo.
O que quero dizer com isso é o óbvio que muitas empresas ainda ignoram: sem cultura não há processo; e sem processo bem alinhado também não há cultura.
Toda mudança comportamental não nasce apenas de um fluxo bem desenhado ou de uma ferramenta bem contratada. Ela nasce, principalmente, da construção de uma narrativa de desempenho que sustente a mudança. Não basta criar condições tecnológicas para que algo novo aconteça. É preciso comunicar quando, como e por que essa mudança irá acontecer.
Desprezar isso é apostar em um investimento furado. Outro ponto importante: não existe transformação cultural consistente quando a liderança terceiriza o exemplo para a base. A mudança pode até ganhar força de baixo para cima, mas dificilmente se sustenta se não houver direção, ritual e coerência vindos de cima, particularmente eu chamo essa mudança de baixo para cima em efeito bidê, e ela não costuma ser muito efetiva em uma transformação cultural.
A demanda cultural precisa ser sustentada pela liderança. São os rituais de exemplo, as decisões, as conversas difíceis e os critérios de cobrança que mostram o caminho que a empresa precisa seguir. Quando a transformação nasce apenas como uma rebelião da base contra o sistema, ela até pode gerar movimento, mas dificilmente cria sustentação.
Quando eu e minha sócia decidimos escrever nosso livro, “As 3 Leis da Prosperidade”, fizemos um estudo aprofundado sobre empresas que performam com eficiência no longo prazo. E uma coisa ficou muito clara: empresas consistentes não sustentam resultados por meio de espasmos performáticos.
Elas não prosperam porque aderem ao jargão do momento. Elas prosperam porque implantam soluções conectadas ao seu modelo de gestão, à sua cultura, aos seus líderes e à sua estratégia de longo prazo.
Isso significa que as melhores soluções nem sempre estão à espera de uma nova ferramenta. Muitas vezes, elas dependem de um investimento mais profundo em preparar pessoas para lidar de maneira inteligente com os instrumentos tecnológicos disponíveis.
A empresa precisa capturar do time a percepção de sentido e propósito por trás dessas soluções. Muitas organizações perdem dinheiro em implantações, independentemente do porte, porque não levam em conta como o fator humano irá se comportar diante da mudança. Gastam energia nas prioridades erradas e depois se surpreendem quando a tecnologia não entrega o resultado esperado.
E acredite: isso não é exclusividade de pequenas empresas. Eu já vi esse tipo de perda acontecer em empresas grandes, estruturadas e reconhecidas no mercado. Aliás, em alguns casos, quanto maior a organização, maior o desperdício produzido por implantações desconectadas da cultura real.
Por isso, a IA tem sido extremamente eficiente em revelar deficiências de gestão e comportamento dentro das equipes.
Basta observar o que aparece quando se propõe automatizar um processo, simplificar uma rotina ou mudar uma diretriz com apoio de tecnologia. Quais comportamentos emergem? O time reage com curiosidade ou com medo? A liderança consegue explicar o sentido da mudança ou apenas cobra adesão? As pessoas embarcam rapidamente ou ficam esperando para ver se “essa moda vai pegar”? Quem ajuda o processo a avançar? Quem precisa ser desenvolvido? E quem, em alguns casos, precisa sair do circuito para que a transformação aconteça?
Essas perguntas dizem muito mais sobre a cultura da empresa do que sobre a ferramenta contratada.
No fim, a IA não apenas automatiza processos. Ela ilumina comportamentos. Mostra quem aprende, quem resiste, quem lidera, quem espera a mudança passar e quem precisa ser reposicionado para que a empresa avance.
A tecnologia pode até acelerar o caminho, mas a solução e o problema continuam morando no mesmo lugar: o ser humano por trás da ferramenta.
Danilo Olegario
Sócio da Rhoer Consultoria de Negócios e Escritor











