segunda-feira, junho 15
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Danilo Olegario
Danilo Olegario

Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação...

“O Corporativismo na Seleção Brasileira”

· 9 min de leitura

Nota da Redação: O portal PIRANOT preza pela liberdade de expressão e pela pluralidade de ideias. Ressaltamos, no entanto, que os textos de opinião publicados neste espaço são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, obrigatoriamente, a visão do portal, de seus editores ou parceiros.

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É ano de Copa do Mundo, sem dúvida um dos eventos mais relevantes do planeta. Não apenas pelo aspecto esportivo, mas principalmente pelo impacto social, econômico e político que carrega.

A Copa é talvez um dos poucos acontecimentos capazes de engajar pessoas dos mais diversos espectros sociais em torno de um único desejo: ver seu país campeão do mundo. Talvez seja o único evento que consiga criar uma sinergia minimamente civilizada entre corintianos e palmeirenses, gremistas e colorados, vascaínos e flamenguistas. No fim, todos querem a mesma coisa: o hexa da Seleção Brasileira. Afinal, já faz um tempinho que não levantamos o caneco, e seria muito agradável, quase terapêutico, ver o Brasil conquistar a tão desejada sexta estrela.

Contudo, é inevitável. Quase uma força sobrenatural nos empurra a analisar a atual Seleção Brasileira. Você não precisa entender absolutamente patavinas de futebol, mas certamente terá um palpite sobre quem deveria ser escalado, quem não deveria nem estar ali, qual esquema tático resolveria tudo e qual jogador “não serve nem para banco”. Todos, de alguma forma, somos absorvidos por esse clímax que só uma Copa do Mundo consegue produzir. Tornamo-nos especialistas em tática, comentaristas de mesa de bar e técnicos de sofá. É assim desde que o mundo é mundo, desde que Copa é Copa.

Portanto, embarcando nessa lógica, vamos falar um pouco sobre o contexto da nossa Seleção Brasileira. E não, este não é um texto de numerologia para tentar adivinhar se o Brasil será ou não campeão. É claro que queremos isso, mas há todo um caminho pela frente. Então, vamos nos ater a uma análise contextual do Brasil.

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A Seleção Brasileira é como uma empresa. Tem todo tipo de persona e arquétipo que você puder imaginar. Dá para fazer inúmeras analogias aqui. O Brasil tem hoje dois jogadores que, por uma lógica simples, deveriam ser protagonistas: Vini Jr., pelo Real Madrid, e Raphinha, pelo Barcelona. Se ambos são protagonistas em seus clubes, pela lógica deveriam ser também os caras da Seleção Brasileira.

Acontece que, no futebol, assim como no mundo corporativo, nem sempre a lógica acompanha o talento. Até aqui, ambos ainda não conseguiram refletir na Seleção aquilo que fazem em seus clubes.

Vini Jr. e Raphinha representam aquelas pessoas que ocupam posições estratégicas em uma organização pelo que conquistaram em determinado momento da carreira, mas que, na função atual, não conseguem entregar o resultado esperado. Só que são colaboradores muito “caros”, simbólica e politicamente, e simplesmente não dá para tirá-los de cena. No ambiente organizacional, existe o jogo político. Em outras palavras: há muita gente ruim ocupando posições estratégicas, colocada ali por alguma razão que ninguém entende, mas que permanece lá. São líderes que não lideram, não delegam, não assumem a bronca, mas têm costas quentes. De alguma forma, precisam dar certo.

Temos também Neymar, aquele gestor que já deu muito resultado para a empresa, mas que claramente já não é mais o mesmo. Mesmo longe do auge, é chamado para o projeto para encobrir as fragilidades do time. Ele é o sujeito que, se tudo der errado, carregará boa parte da culpa. Porque, apesar de já não ser mais o mesmo, ainda é um dos poucos que aguenta o rojão. Os demais, aparentemente, ainda não descobriram como se chama responsabilidade para si.

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Temos também aqueles jogadores que já tiveram sua chance, já provaram que dificilmente serão decisivos, mas que, por alguma razão metafísica, continuam lá. Alisson, Danilo e Alex Sandro são exemplos dessa lógica. São como aqueles filhos dos donos da empresa que ocupam cargos importantes porque, bem, são filhos dos donos. Não rendem perto do esperado, mas precisam estar ali. Afinal, tradição também tem seu crachá.

Há ainda aquele líder que lidera bem, é pau para toda obra, mata no peito e resolve, mas, quando abre a boca, quase desmonta meio time. É o caso de Casemiro: o chefão bruto por fora, mas talvez ingênuo demais por dentro.

Também temos aqueles colaboradores que provam definitivamente a existência de Deus. Porque só uma explicação muito bíblica justifica certas convocações que quase ninguém entende. São os casos de Lucas Paquetá e Léo Pereira. Funcionários que, no imaginário popular, parecem não ter talento suficiente, vontade suficiente ou patrocínio visível o bastante para justificar tanta sobrevida institucional. Ainda assim, estão lá. A permanência deles extrapola o entendimento racional. Só nos resta concluir que Deus, além de brasileiro, é generoso com alguns currículos.

Temos, por outro lado, os recém-contratados: jovens, talentosos e perigosamente animados. Aqueles que ouviram o discurso do RH sobre “pensar fora da caixinha” e, coitados, levaram a sério. Eles realmente pensam e fazem coisas fora da caixinha. Entram com vontade, jogam para frente, querem resolver, querem entregar resultado. São Endrick, Luiz Henrique, Igor Thiago e Rayan.

Esses são como jovens trainees talentosos que ainda acreditam no PowerPoint motivacional da empresa. Acreditam em meritocracia, em protagonismo, em inovação, em “vestir a camisa”. Mas, aos poucos, descobrem que a realidade corporativa costuma ser bem menos inspiradora do que o onboarding prometia. Nem sempre os talentosos, cheios de energia e boa intenção, predominam em certos ambientes. Muitas vezes, eles precisam esperar a fila andar enquanto a empresa insiste em promover a nostalgia.

E o mais irônico é que a velha guarda adora aqueles feedbacks programados e rasos: “são muito jovens”, “estamos preparando para o futuro”, “precisam fazer parte do grupo”, “o processo é importante”. Enquanto isso, a concorrência faz exatamente o oposto: aposta nos novos talentos, dá minutos, dá responsabilidade, dá campo. A nossa empresa, por sua vez, parece fascinada pelo próprio passado.

E claro, temos a figura do CEO legalzinho: Carlo Ancelotti. Um técnico com histórico incontestável de conquistas, mas que assumiu um desafio no qual ainda tenta assimilar a cultura local. Ele parece querer fazer um trabalho sério, mas precisa pagar pedágio ao sistema: patrocinadores, conselheiros, imprensa, dirigentes e um banco de sanguessugas que não deixa o homem simplesmente repetir o que fez em outras empresas. Em resumo: Ancelotti pegou uma empresa em decadência e precisa fazê-la virar antes que seja tarde.

O fato é que o corporativismo também está impregnado na Seleção Brasileira. E espero, sinceramente, estar muito equivocado, mas esse excesso de “corporativês” pode fazer a Seleção parar no meio do caminho.

A Copa tem uma lógica própria. Ela exige outro tipo de liderança, outro tipo de jogador, outro tipo de energia. O time que quiser vencer esse campeonato precisará renunciar aos egos empresariais e jogar com mais sangue nos olhos. Jogador de Copa do Mundo precisa impor respeito. Precisa dar medo no adversário. Precisa ter cara de poucos amigos, de sujeito que não entrou em campo para fazer networking.

E, olhando para o atual time titular da Seleção Brasileira, não vejo muitos jogadores transmitindo esse tipo de energia. Pelo contrário: o time parece refletir um elemento geracional negativo, com sensibilidade em excesso, empatia colorida e uma linguagem de RH fofinho. Isso pode até funcionar nos escritórios da Faria Lima ou da Vila Olímpia, mas, dentro de campo, será preciso resgatar o velho e bom jeito moleque de jogar. Será preciso encontrar personagens que entrem em campo com aquele “ódio” nos olhos que afugenta qualquer adversário.

A história é insuportavelmente didática nesse ponto. A Argentina, com um time menos talentoso que o da França na última Copa, sagrou-se campeã com um personagem central: o goleiro Emiliano Martínez. O sujeito tinha cara de quem não estava ali para fazer amigos, e foi decisivo para os Hermanos. Romário, em 1994, tinha a mesma frieza assustadora. Parecia estar jogando uma pelada, tamanha a naturalidade com que destruía adversários. Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho, em 2002, jogavam com cara de deboche, como se soubessem que aniquilariam o adversário a qualquer momento. Zidane, em 1998, também era assim: frio, elegante e com olhar de quem não devia satisfação a ninguém.

O Brasil tem alguns desses meninos chegando para esta Copa. Jovens pedindo passagem, com cara de maluco, pensando e fazendo coisas fora da caixinha. Mas ninguém muda resultado sentado no banco. Se não soltarem suas coleiras e deixarem esses garotos correrem, temo que teremos mais uma Copa servindo apenas para aumentar o carimbo no passaporte dos convocados. Uma excursão internacional com uniforme bonito, não uma campanha real pelo título mundial.

E talvez seja justamente aí que a analogia com o mundo corporativo fique mais incômoda. Porque muitas empresas também gostam de falar em inovação, coragem, protagonismo e alta performance, mas, na hora de decidir, protegem os mesmos sobrenomes, os mesmos cargos, os mesmos discursos e os mesmos fracassos bem-vestidos. Criam programas para descobrir talentos, mas entregam as decisões aos guardiões do passado. Pedem ousadia nos murais, mas punem quem ousa na prática. Celebram a meritocracia no LinkedIn, mas operam nos bastidores pela lógica da conveniência, da blindagem e da manutenção de poder.

A Seleção, nesse sentido, parece repetir a velha coreografia corporativa: muita apresentação bonita, muito discurso de transformação, muito alinhamento institucional, mas pouca coragem para mexer onde realmente precisa. E nenhum projeto vence apenas com reputação, cargo, histórico ou crachá. Vence quem entrega quando o ambiente aperta. Vence quem tem fome. Vence quem não está ali apenas para preservar imagem, cumprir protocolo ou sair bem na foto oficial.

Por isso, se a Seleção quiser mesmo disputar uma Copa do Mundo, precisará deixar de se comportar como uma empresa que confunde governança com acomodação. Vai precisar parar de proteger currículo e começar a premiar impacto. Parar de administrar vaidades e começar a escalar intensidade. Porque Copa do Mundo, assim como mercado competitivo, não perdoa organização que vive de PowerPoint, memória afetiva e política interna. Uma hora, a realidade entra em campo. E, quando ela entra, não costuma respeitar hierarquia.

Mas, de novo, meu desejo é que este texto seja apenas um espasmo opinativo. Que eu esteja completamente errado. Aliás, nunca desejei tanto estar errado em toda a minha vida. Mas algo ainda me diz que, se a Seleção não sair desse marasmo corporativo e não jogar como quem tem tudo a perder, vamos mais uma vez a passeio.

Façamos votos para que eu esteja completamente errado.

Danilo Olegario
Sócio da Rhoer Consultoria de Negócios e Escritor

Danilo Olegario
Sobre o colunista

Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação corporativa, é fundador da RHOER e referência em treinamentos e consultorias de alta performance. Autor de sete livros sobre gestão, autodesenvolvimento e negócios, já atuou em grandes empresas como Aegea, Hyundai Motors, Grupo São Martinho e Grupo CCR (atual Motiva). Escreve quinzenalmente às terças-feiras no PIRANOT sobre liderança, propósito e o lado humano dos negócios.

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