sábado, 18 de julho de 2026
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Danilo Olegario
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Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação...

“A epidemia da distração; a morte da atenção: ninguém termina nada”

· 9 min de leitura

Pontos-chave

  • A atenção se tornou moeda valiosa na economia digital, disputada por algoritmos e plataformas.
  • Estudos científicos mostram que multitarefa aumenta estresse e reduz controle cognitivo nas pessoas.
  • A distração contemporânea é estimulada por sistemas projetados para capturar e vender atenção humana.

Nota da Redação: O portal PIRANOT preza pela liberdade de expressão e pela pluralidade de ideias. Ressaltamos, no entanto, que os textos de opinião publicados neste espaço são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, obrigatoriamente, a visão do portal, de seus editores ou parceiros.

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Chegamos ao último artigo da nossa série “A Epidemia da Distração” e, claro, como não poderia deixar de ser, o tom deste texto seguirá a mesma premissa dos anteriores: não será uma mensagem motivacional. Pelo contrário. Vamos nos ater às reflexões que nos deixam inquietos e pensativos, como instrumento central da nossa proposta, que é levar as pessoas a ampliarem seus repertórios de maneira mais crítica.

Não bastasse todo o conteúdo que tratamos nos textos anteriores, trazendo sempre como eixo principal um sintoma que já estamos vivendo, a tal “epidemia da distração”, não é de se surpreender que a atenção das pessoas esteja dispersa. Claro: se estamos vivendo o coletivo de uma sociedade distraída, torna-se bastante óbvio que a distração vem justamente da ausência de atenção.

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E a atenção tem sido a grande “moeda” que dita o rumo dos algoritmos nas redes digitais. Quanto mais capturamos a pouca atenção das pessoas, maior é o nosso engajamento: mais likes, mais curtidas, mais comentários, mais viralização e, portanto, mais moeda. Essa é a nova dinâmica da economia. E é assim em todas as esferas, inclusive na política: o político que melhor captura a atenção das pessoas nas redes sociais tende a ser o que melhor performa nas campanhas.

O ponto para o qual devemos prestar atenção é o seguinte: se estamos vivendo uma sociedade mais superficial, do ponto de vista da vasta rede de escolhas de consumo que temos, então vivemos também o paradoxo das escolhas. Quanto mais escolhas, mais confusos e angustiados nos tornamos. Nesse cenário, qual você acredita que será o tipo de conteúdo que concorrerá pela sua atenção nas redes sociais? Se a nossa janela de validação da mensagem, ou seja, grande parte da decisão entre continuar ou ignorar, acontece muito cedo, em uma variação de 3 a 47 segundos por tela de um vídeo por exemplo, qual é a chance de um tema que exige algum empenho cognitivo realmente capturar a atenção do grande coletivo? Em outras palavras: que chance Shakespeare ou Einstein teriam, em um mundo como o de hoje, de capturar a atenção das pessoas em uma janela de tempo tão curta com as suas ideias? Haveria uma boa chance de que eles também precisassem aderir a alguma trend viral ou dancinha desmoralizante para tornar seus conteúdos acessíveis e “entendíveis” para as pessoas.

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As pessoas estão alternando de foco com mais frequência, especialmente nas telas. Isso não prova, necessariamente, que a capacidade biológica de atenção diminuiu, mas mostra que o comportamento atencional no ambiente digital ficou mais fragmentado. As pessoas não conseguem mais sustentar a atenção e concluir uma tarefa, porque trocam de foco o tempo todo, especialmente em ambientes digitais.

Essa ideia de que fazemos muitas coisas ao mesmo tempo se sustentou por muito tempo. Abraçamos a imagem do sujeito multitarefa como exemplo máximo de competência. No entanto, essa capacidade não vem sem um custo alto. Quando uma pessoa é interrompida ou alterna de tarefa, ela pode até compensar trabalhando mais rápido, mas isso aumenta estresse, esforço mental e sensação de pressão. No estudo “The Cost of Interrupted Work: More Speed and Stress” (Tradução: “O Custo do Trabalho Interrompido: Mais Velocidade e Estresse”), Gloria Mark, Daniela Gudith e Ulrich Klocke mostraram que pessoas interrompidas, ou com alternância de foco, de fato completavam tarefas em menos tempo, mas com custo: mais estresse, frustração, esforço, pressão de tempo e carga mental. Com isso, a ideia de que ser multitarefa é uma virtude vai por água abaixo. Em alguns casos, isso se torna o gatilho para uma série de distúrbios comportamentais seríssimos. A virtude, no fim, passa a ser desgaste.

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Por outro lado, quando uma pessoa muda de uma tarefa para outra sem terminar a anterior, parte da atenção continua presa na tarefa inacabada. Isso reduz a presença cognitiva na tarefa seguinte, Sophie Leroy chama isso de “attention residue” (tradução: “resíduo de atenção”). Em seu estudo, ela mostra que pessoas precisam “desligar cognitivamente” de uma tarefa para conseguir desempenhar bem a próxima, ou seja, quando a tarefa anterior fica incompleta, o desempenho subsequente sofre consequências cognitivas. Isso também desmonta a tese de que somos altamente capazes de fazer mais de uma coisa bem-feita ao mesmo tempo, não somos, e em geral, fazemos uma coisa bem-feita por vez, seja você um cérebro masculino ou feminino, com algumas variações é claro. Um exemplo categórico disso são os filhos – perceba o quanto de tarefas domésticas do dia a dia seu filho faz de maneira eficaz ao mesmo tempo, faça um teste e peça para ele arrumar sua cama, organizar o quarto e ainda colocar ração para os bichos, mas faça esse teste quando eles estiverem jogando vídeo game ou no celular. Nossas crianças já vêm com o chip da desatenção instalado, e ele ainda é potencializado pelos inúmeros estímulos virtuais recebidos ao longo do dia.

As pessoas não apenas se distraem elas acumulam pendências cognitivas. Cada tarefa não concluída deixa um rastro mental que dificulta o foco na próxima atividade. Objetivos não concluídos continuam ativos na mente e interferem em tarefas posteriores, principalmente quando exigem funções executivas como raciocínio, planejamento e controle mental. Uma tarefa não finalizada não desaparece mentalmente. Ela continua competindo por recursos cognitivos, o que ajuda a explicar por que o excesso de projetos, abas, mensagens e pendências reduz a sensação de foco

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Outro dado relevante: Pessoas que consomem várias mídias simultaneamente — por exemplo, vídeo, mensagens, redes sociais e e-mail — tendem a apresentar mais dificuldade para filtrar distrações e alternar de tarefa de forma eficiente – O estudo clássico de Ophir, Nass e Wagner, publicado na PNAS, comparou pessoas com alto e baixo nível de multitarefa midiática. Os autores investigaram se multitarefas pesados teriam melhor controle cognitivo, mas encontraram o contrário: maior dificuldade para filtrar informações irrelevantes e maior custo na troca de tarefas. Portanto, o hábito de alternar entre mídias está associado a menor controle atencional e maior suscetibilidade a distrações – isso mesmo quando a pessoa não está usando o celular, a simples presença do aparelho pode consumir parte da capacidade cognitiva disponível. O celular não compete pela atenção apenas quando toca ou vibra. Em certas condições, sua simples presença pode funcionar como uma demanda cognitiva latente. Experimente em uma roda de amigos durante um jantar, deixar o celular visível enquanto conversa – há uma grande probabilidade de você checar o aparelho de tempos em tempos.

Sabendo disso, as plataformas digitais competem economicamente pela atenção humana. Logo, a distração não é só um problema individual e social, é também um resultado de design, modelo de negócio e disputa comercial, ou seja, a dispersão contemporânea não é um mero fator acidental. Ela é estimulada por sistemas projetados para capturar, medir, vender e recapturar atenção – Tim Wu argumenta que, em uma economia de informação abundante, a atenção se tornou uma mercadoria central, disputada por publicidade, mídia e plataformas. Não é à toa que a internet favorece leitura rápida, escaneamento e consumo fragmentado de informação, em contraste com práticas de leitura profunda e sustentada. A questão não é apenas “menos atenção”, mas uma mudança no tipo de atenção: de leitura linear e profunda para navegação, escaneamento e alternância rápida.

Quer um último exemplo de como os algoritmos capturam a sua atenção de maneira estrategicamente pensada: São os debates entre duas vias contraditoriamente ideológicas, exemplo, a moda do 1 contra 30. Você coloca uma pessoa de uma ideologia X para debater com 30 pessoas que pensam como Y, o resultado disso são inúmeros cortes legais que vão para as diversas plataformas como capturadores de atenção, é um negócio tão tosco e que funciona tão perfeitamente bem que as pessoas não percebem o quanto são induzidas a consumirem esses cortes quentes. Pare para pensar por alguns instantes: Do que realmente interessa, do ponto de vista ideológico, para um militante de direita converter um militante de esquerda – ou vice e versa, não é esse o objetivo de um debate e nunca vai ser pois isso não gera o menor engajamento, o objetivo desses debates é gerar cortes onde um lado alfineta o outro, com argumentos que impulsionam as discussões virtuais do tipo: “fulano jantou cicrano, veja só…”, quem ganha com isso? Quem tem seu corte viralizado, mais compartilhado, mais comentado, com certeza não é você que se inflama ou comemora o assunto. E é assim para todos os temas: religião, política, relacionamentos, futebol – Você acredita mesmo que um palmeirense quer convencer um corintiano à sua ideologia futebolística? Sério? Não sejamos ingênuos. A finalidade de grande parte do que acontece no mundo digital é engajamento, e não a causa.

E talvez seja justamente aí que mora a parte mais incômoda de tudo isso: não estamos apenas perdendo tempo, estamos desaprendendo a sustentar presença. Estamos ficando cada vez mais treinados para reagir e cada vez menos preparados para aprofundar, concluir, contemplar e pensar. A distração virou hábito, o hábito virou cultura, e a cultura agora nos devolve sujeitos ansiosos, acelerados e permanentemente incompletos. Ainda assim, há uma saída, e ela não passa por demonizar a tecnologia nem por fingir que vamos voltar a um mundo sem telas. Ela passa por recuperar, quase como um gesto de resistência, a capacidade de escolher onde colocamos nossa atenção. Porque, no fim das contas, a atenção é a matéria-prima da consciência. E quem não decide onde a coloca, cedo ou tarde descobre que alguém decidiu por ele.

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Danilo Olegario
Sócio da Rhoer Consultoria de Negócios e Escritor

Danilo Olegario
Sobre o colunista

Danilo Olegario

Consultor de negócios, especialista em liderança, cultura organizacional e desenvolvimento humano. Com mais de 25 anos de experiência em educação corporativa, é fundador da RHOER e referência em treinamentos e consultorias de alta performance. Autor de sete livros sobre gestão, autodesenvolvimento e negócios, já atuou em grandes empresas como Aegea, Hyundai Motors, Grupo São Martinho e Grupo CCR (atual Motiva). Escreve quinzenalmente às terças-feiras no PIRANOT sobre liderança, propósito e o lado humano dos negócios.

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